{"id":1357,"date":"2019-02-14T14:30:17","date_gmt":"2019-02-14T16:30:17","guid":{"rendered":"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/?post_type=artigos&#038;p=1357"},"modified":"2019-02-14T14:33:04","modified_gmt":"2019-02-14T16:33:04","slug":"santidade-e-marginalidade-artigo-de-luiz-carlos-susin","status":"publish","type":"artigos","link":"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/artigos\/santidade-e-marginalidade-artigo-de-luiz-carlos-susin\/","title":{"rendered":"Santidade e marginalidade (artigo de Luiz Carlos Susin)"},"content":{"rendered":"<p><strong><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-1716\" src=\"https:\/\/redesoberania.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/ad\u00faltero-final.jpg\" alt=\"\" width=\"405\" height=\"270\" \/>Santidade e marginalidade<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Luiz Carlos Susin<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Depois de contar a par\u00e1bola dos dois filhos \u2013 o que disse que faria a vontade do Pai mas na verdade n\u00e3o fez, e o que disse que n\u00e3o faria e afinal acabou fazendo \u2013 Jesus conclui com uma afirma\u00e7\u00e3o escandalosa para a religi\u00e3o formalista de todos os tempos: \u201cEm verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. Pois Jo\u00e3o veio a v\u00f3s no caminho de justi\u00e7a, e n\u00e3o crestes nele. Os publicanos e as prostitutas creram nele. V\u00f3s, por\u00e9m, vendo isto, nem sequer reconsiderastes para crer nele, afinal\u201d (Mt 21,31b-32). Atendo-nos aos crit\u00e9rios evang\u00e9licos de Jesus, O Reino de Deus e a entrada nele determinam a santidade crist\u00e3. E aqui est\u00e1 o esc\u00e2ndalo: Jesus constata mais santidade em prostitutas do que em chefes da religi\u00e3o dos quais se poderia esperar o melhor exemplo. \u00c9 disso que trata este artigo: come\u00e7ando fenomenologicamente por alguns casos de \u201csantas prostitutas\u201d do catolicismo popular, constata esta santidade em meio \u00e0 promiscuidade e \u00e0 viol\u00eancia em nossos dias, e amplia para uma reflex\u00e3o sobre a conex\u00e3o entre santidade e marginalidade, o que integra o esc\u00e2ndalo e a loucura que est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da f\u00e9 e da experi\u00eancia crist\u00e3 de santidade (cf 1Cor 1&#8230;.).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><strong>As \u201csantas prostitutas\u201d do sul do Brasil.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Um estudo de antropologia social dedicado especialmente ao fen\u00f4meno de \u201cevhemeriza\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, ou seja, de canoniza\u00e7\u00e3o m\u00edtica de pessoas de carne e osso, \u00e9 nosso ponto de partida para uma reflex\u00e3o sobre a conex\u00e3o entre santidade e marginalidade. Trata-se de tr\u00eas casos de devo\u00e7\u00e3o popular no Estado do Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil, Estado que tem fronteiras com Uruguai e Argentina. O autor intitula seu estudo de antropologia com uma express\u00e3o incomum: \u201cAs santas prostitutas\u201d.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Na base da devo\u00e7\u00e3o, pesquisa tr\u00eas mulheres que n\u00e3o s\u00e3o exatamente nem santas e nem prostitutas, mas uma mistura de ambas as realidades, vidas fora das normas institucionais para serem consideradas vidas corretas segundo a sociedade; e, no entanto, vidas de certa santidade reconhecida pela solidariedade, bondade, socorro aos pobres e aflitos ainda em vida e por milagres e gra\u00e7as alcan\u00e7adas ap\u00f3s a morte. \u00a0<\/p>\n<p>Um pouco de informa\u00e7\u00e3o: na fronteira do Estado brasileiro do Rio Grande do Sul com Argentina, na cidade de S\u00e3o Borja, de origem missioneira e jesu\u00edtica, encontramos a expressiva devo\u00e7\u00e3o a Maria do Carmo. Na cidade de S\u00e3o Gabriel, no centro do Estado, a devo\u00e7\u00e3o acontece em torno da mem\u00f3ria de Maria Isabel, tamb\u00e9m chamada simplesmente \u201ca guapa\u201d, por ser ela muito provavelmente de origem uruguaia e ter seu apelido espanhol pelo fato de ser \u201cbela\u201d. A terceira pode ser encontrada na capital do Estado, em Porto Alegre, numa vila (favela) que leva seu nome, Maria da Concei\u00e7\u00e3o (tamb\u00e9m chamada por muito tempo Maria Degolada, indicando a forma violenta de sua morte). Esta vila se localiza, ironicamente, no bairro denominado Partenon.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>O que elas tem em comum historicamente? As tr\u00eas viveram no final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcios do s\u00e9culo XX, numa mesma regi\u00e3o que se estabelecia com grande presen\u00e7a e for\u00e7a militar. Al\u00e9m de serem todas \u201cMarias\u201d numa cultura crist\u00e3 que remete \u00e0 m\u00e3e de Jesus, as tr\u00eas se n\u00e3o foram exatamente prostitutas, foram prom\u00edscuas e amantes de militares. Duas foram l\u00edderes de bord\u00e9is, tendo se caracterizado pelo cuidado quase maternal com as \u201cmeninas\u201d de seus bord\u00e9is, e tendo utilizado sua influ\u00eancia e recursos em favor de crian\u00e7as e de pessoas pobres e em necessidades. As tr\u00eas foram consideradas, al\u00e9m de boas pessoas, muito belas, o que provocou ci\u00fames fatais, e acabaram morrendo jovens e de forma violenta, assassinadas com requintes de crueldade, por faca ou arma de fogo, por parte de seus amantes ou a esposa de um deles em ataque de ci\u00fames. Suas mortes foram consideradas uma injusti\u00e7a que clama aos c\u00e9us por parte da popula\u00e7\u00e3o mais pobre.<\/p>\n<p>E o que as tr\u00eas t\u00eam em comum na \u201cevhemeriza\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201ccanoniza\u00e7\u00e3o\u201d de suas hist\u00f3rias tr\u00e1gicas? Salta aos olhos o aspecto de \u201cCurador ferido\u201d na compreens\u00e3o e na procura popular em rela\u00e7\u00e3o a estas tr\u00eas Marias.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Provavelmente a beleza, aliada \u00e0 juventude, tenha se acentuado na fantasia religiosa \u2013 \u201cn\u00e3o h\u00e1 santa feia\u201d, diz de passagem nosso antrop\u00f3logo &#8211; mas a bondade e a injusti\u00e7a de suas mortes \u00e9 que permitiram uma identifica\u00e7\u00e3o e um recurso \u00e0 compaix\u00e3o delas diante das viol\u00eancias sofridas por seus devotos. Por isso, todas tem lugar fixo de culto \u2013 uma capelinha &#8211; com data de homenagem, velas e flores, placas de agradecimentos an\u00f4nimos por gra\u00e7as alcan\u00e7adas. Todas coincidentemente s\u00e3o homenageadas com pinturas brancas e azuis, cores que lembram a Imaculada, sendo Maria da Concei\u00e7\u00e3o, a degolada, homenageada em sua capelinha justamente no dia da Imaculada, 08 de dezembro. Embora todas tenham sido mulheres \u201cbrancas\u201d, no imagin\u00e1rio popular elas s\u00e3o representadas tamb\u00e9m como morenas ou, no caso da degolada, inclusive \u201cnegra\u201d em uma vila de Porto Alegre que \u00e9 reduto hist\u00f3rico de descendentes de negros escravos. Al\u00e9m disso, trata-se de tr\u00eas mulheres que sofreram nas m\u00e3os de homens e militares: s\u00e3o, sobretudo, mulheres em afli\u00e7\u00e3o que recorrem a elas. O nosso autor, que as estudou de um ponto de vista antropol\u00f3gico, al\u00e9m de constatar nesses casos o \u201cpoder dos humildes\u201d e a <em>mater misericordiae <\/em>pronta a socorrer nas afli\u00e7\u00f5es parecidas com as que elas mesmas conheceram em suas vidas e mortes, acrescenta:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">A prostitui\u00e7\u00e3o e at\u00e9 a simples promiscuidade violam a norma social do grupo. Os devotos das santas-prostitutas em nenhum momento esquecem a condi\u00e7\u00e3o de desviantes de Maria do Carmo, de Maria Isabel, a \u201cGuapa\u201d ou de Maria Degolada. Antes pelo contr\u00e1rio: salientam este fato como se dissessem: \u2018Sim, ela era prostituta, mas&#8230;\u2019 para enfatizar o fato que gra\u00e7as \u00e0 sua santidade aos olhos de seus devotos, essas tr\u00e1gicas mulheres superaram o desvio. E essa supera\u00e7\u00e3o d\u00e1 uma esperan\u00e7a a todos, obviamente, ao \u2018provar\u2019 que, pelo exerc\u00edcio daquelas qualidades e valores erigidos pelo grupo como <em>positivos<\/em>, isto \u00e9, idealizados, qualquer um dos membros do grupo tamb\u00e9m pode alcan\u00e7ar o perd\u00e3o divino, por muito que tenha infringido a norma (&#8230;). Parece que nas camadas mais desfavorecidas da popula\u00e7\u00e3o, as pessoas, desde que disponham de op\u00e7\u00e3o, querem santos e santas que se identifiquem com elas, pobres e pecadores, viciados e v\u00edtimas, mas de cora\u00e7\u00e3o puro (&#8230;) e que tenham enfrentado o poder e padecido sob ele, morrendo de forma socialmente traumatizante. E que, desde o para\u00edso que se asseguraram por terem sido bons em vida, amigos das crian\u00e7as e dos pobres, e pelo martirol\u00f3gio, n\u00e3o tenham se esquecido do bairro ou da comunidade onde outros pobres continuam vivendo e enfrentando os mesmos problemas. \u00c9 mais f\u00e1cil falar com uma santa assim: n\u00e3o h\u00e1 cobran\u00e7a nem amea\u00e7as (&#8230;). A santa n\u00e3o se escandalizar\u00e1 com os pecados do crente, porque em vida ela tamb\u00e9m cometeu esses pecados, ao contr\u00e1rio da Virgem Nossa Senhora e de outras santas oficiais das Igrejas. (&#8230;) E mais: as santas-prostitutas compreendem o povo, porque fizeram parte dele. Sabem de seus problemas, de suas ang\u00fastias \u2013 e tem for\u00e7a para atender os seus pedidos. Os quais, de resto, s\u00e3o simples quest\u00f5es de amor, de sa\u00fade, de emprego ou de fam\u00edlia, invariavelmente. Essa \u00e9 a etiologia das santas-prostituas.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Flores em meio ao p\u00e2ntano, inoc\u00eancia em meio \u00e0 viol\u00eancia, pureza junto \u00e0 promiscuidade e \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o: relatos parecidos encontram-se em muitas latitudes. Para ficar ainda na regi\u00e3o, encontra-se no norte da Argentina, na prov\u00edncia de Corrientes, perto da cidade de Mercedes, a devo\u00e7\u00e3o ao \u201cGauchito Gil\u201d, cujo n\u00facleo hist\u00f3rico remonta a uma importante guerra que envolveu os pa\u00edses da regi\u00e3o na metade do s\u00e9culo XIX. Acabada a guerra, continuava a proliferar a viol\u00eancia em partidos pol\u00edticos. Gil desistiu ent\u00e3o, como um objetor de consci\u00eancia: n\u00e3o queria viol\u00eancia fratricida. Por isso foi sumariamente processado como desertor e enforcado. E ent\u00e3o come\u00e7ou sua \u201ccanoniza\u00e7\u00e3o\u201d: fez um gesto de miseric\u00f3rdia para com seu algoz curando-lhe o filho, e a partir deste sinal de santidade, ele \u00e9 o vingador, o <em>go\u2019el<\/em>, dos que s\u00e3o violentados, protetor dos que s\u00e3o amea\u00e7ados de viol\u00eancias de toda sorte.<\/p>\n<p>Voltando ao lado de c\u00e1 da fronteira, e ampliando as formas de santidade reconhecidas por uma popula\u00e7\u00e3o devota \u00e0 margem oficial da Igreja: as figuras mais enigm\u00e1ticas da complicada identidade \u201cga\u00facha\u201d s\u00e3o tanto ind\u00edgena como negra, ambas com fama de santidade e objetos de difusa devo\u00e7\u00e3o popular. O \u00edndio Sep\u00e9 Tiaraju, l\u00edder guarani da miss\u00e3o jesu\u00edtica que foi objeto do filme \u201cThe Mission\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, morto em combate sob os ex\u00e9rcitos coloniais de Espanha e Portugal, interpretado como um predestinado, portador de um sinal na cabe\u00e7a que resplandece como uma estrela que, em sua morte violenta e injusta, sobe ao c\u00e9u e se fixa no firmamento austral. Da\u00ed seu nome, \u201cTiaraj\u00fa\u201d, que significa \u201craio de luz\u201d. Ele d\u00e1 nome a vilarejos, ruas, monumentos, estabelecimentos comerciais, postos de gasolina, lancherias, r\u00e1dios, centros de cultivo das tradi\u00e7\u00f5es ga\u00fachas, e inclusive a uma cidade da regi\u00e3o, sempre com o t\u00edtulo de santo. Se <em>S\u00e3o Sep\u00e9 Tiaraju<\/em> passa da hist\u00f3ria \u00e0 hagiografia m\u00edtica e prodigiosa, a outra figura \u00e9 inteiramente m\u00edtica, a mais bela narrativa do sul do Brasil e talvez da literatura portuguesa: o <em>Negrinho do Pastoreio<\/em> um menino escravo morto sob os golpes de seu amo. \u00a0\u00c9 a mais pura imagem do servo inocente e sofredor que resgata seus algozes e se torna figura de reden\u00e7\u00e3o. Seus devotos e qualquer pessoa que precisa reencontrar o que perdeu lhe acende uma vela, seguindo no rito o que \u00e9 narrado no mito. Mas o mais importante \u00e9 que no ch\u00e3 duro da hist\u00f3ria este Negrinho \u00e9 figura representativa de todo um povo negro de fato escravizado, sofredor inocente, disperso e moribundo desde a inf\u00e2ncia nesta terra de senhores cru\u00e9is. A narrativa \u00e9 um hino de reconhecimento de dignidade e santidade de milhares de negros que perderam suas vidas no trabalho terr\u00edvel de transformar a carne de gado em carne de sal e sol para serem transportadas para as metr\u00f3poles europeias, as \u201ccharqueadas\u201d.<\/p>\n<p>Evidentemente nenhuma destas santas \u2013 e santos &#8211; \u00e9 de interesse da Igreja, nem cabe nos c\u00e2nones oficiais de santidade. S\u00e3o santos marginais para gente marginal, pr\u00f3prios do catolicismo popular sem clero e tecido de elementos sincr\u00e9ticos. A literatura b\u00edblica e crist\u00e3, desde Raquel, a mulher id\u00f3latra e cheia de barganhas que Jac\u00f3 amava mais que todas, enterrada fora do t\u00famulo de fam\u00edlia e, no entanto, m\u00e3e compassiva de todo o povo de Israel, mesmo da descend\u00eancia das outras mulheres, passando por Tamar, que se fez de prostitua para ser fiel ao marido morto e dar-lhe descend\u00eancia, uma descend\u00eancia da qual prov\u00e9m o pr\u00f3prio Jesus, at\u00e9 modernamente <em>Os miser\u00e1veis <\/em>de Victor Hugo, <em>O advogado do diabo <\/em>de Morris West, ou <em>Fim de caso <\/em>de Graham Greene, ou mesmo a autobiografia de Jean-Yves Leloup, <em>O absurdo e a gra\u00e7a<\/em>, a verdade que a melhor literatura narra emerge desta dial\u00e9tica de p\u00e2ntano e flor, de pecado e gra\u00e7a, de err\u00e2ncia e miseric\u00f3rdia, enfim de solidariedade na mis\u00e9ria e na fragilidade, de compaix\u00e3o como forma mais humana e divina da santidade. Agostinho, com suas <em>confiss\u00f5es<\/em> talvez seja o caso mais cl\u00e1ssico assimilado pela hist\u00f3ria crist\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong>A m\u00edstica feminina de \u201cmulheres todas santas\u201d.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>As \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX se caracterizaram por uma movimenta\u00e7\u00e3o de mulheres atrav\u00e9s das periferias das grandes e pequenas cidades brasileiras incentivadas pelo clima participativo das Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), pela Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, pelas pastorais sociais da Igreja Cat\u00f3lica e de algumas outras Igrejas hist\u00f3ricas. Acrescente-se a isso uma populariza\u00e7\u00e3o da leitura b\u00edblica com interpreta\u00e7\u00e3o engajada, e o que ocorreu foi a emerg\u00eancia de mulheres com crescente for\u00e7a de lideran\u00e7a popular motivadas por uma m\u00edstica b\u00edblica e crist\u00e3 surpreendente. Mesmo quando a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ser sistematicamente desautorizada e as Cebs baixaram seu entusiasmo, a lideran\u00e7a de mulheres do povo permanece firme em conex\u00e3o especial com clubes de m\u00e3es e com a Pastoral da Crian\u00e7a. Esta Pastoral surgiu na d\u00e9cada de 1980, por inspira\u00e7\u00e3o do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns \u00e0 sua irm\u00e3 pediatra que acabou morrendo no terremoto de Port-au-Prince, Haiti, em 2010.\u00a0 Embora a Pastoral da Crian\u00e7a, levada adiante basicamente por um ex\u00e9rcito de mulheres muito humildes e inclusive muitas pobres, tenha se burocratizado perigosamente a partir de seu centro, e tenha sofrido tens\u00f5es por conta de manipula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, nas periferias dos centros urbanos permanece viva e com grande criatividade e capacidade de adapta\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o gra\u00e7as \u00e0 atua\u00e7\u00e3o capilar de mulheres em suas comunidades ou bairros.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> \u00a0<\/p>\n<p>Para fortalecer os engajamentos pastorais das mulheres nas Cebs, nos clubes de m\u00e3es e nas pastorais sociais, algumas lideran\u00e7as na regi\u00e3o de Porto Alegre promovem encontros peri\u00f3dicos que primeiramente foram chamados de Pastoral da Mulher Pobre e depois, advertido o aspecto negativo do t\u00edtulo, chamaram-se encontros de M\u00edstica Feminina. Hoje tais encontros est\u00e3o abertos \u00e0 participa\u00e7\u00e3o masculina e de jovens, mas continuam se caracterizando pelos relatos de solidariedade, de criatividade e de m\u00fatuo est\u00edmulo entre mulheres com lideran\u00e7a em meios populares de bairros de periferia. As narrativas partem de experi\u00eancias em ambientes de grande pobreza, sofrimentos e at\u00e9 de degrada\u00e7\u00e3o, com interven\u00e7\u00f5es sem grandes recursos mas extremamente criativas. Isso repercute na m\u00edstica, na autoimagem, no aumento de entusiasmo em torno de miss\u00e3o. Em outras palavras, as mulheres expressam um crescimento na f\u00e9 e na esperan\u00e7a, uma vis\u00e3o afirmativa de si mesmas com aumento da autoestima, um incentivo a que mais mulheres sigam este caminho.<\/p>\n<p>Especificamente, observo de perto as mulheres l\u00edderes da Pastoral da Crian\u00e7a da Vila Maria da Concei\u00e7\u00e3o, referida acima entre as santas-prostitutas. Algumas t\u00eam filhos cooptados pelo tr\u00e1fico de drogas, algumas t\u00eam filhos ou parentes jovens assassinados, outras precisam visitar seus filhos em pres\u00eddios. Algumas est\u00e3o criando as crian\u00e7as de parentes ou vizinhos presos ou que morreram ceifados pela Aids. Por raz\u00f5es de sobreviv\u00eancia afetiva algumas t\u00eam filhos de diferentes pais, mas est\u00e3o quase todas separadas. Em sua grande maioria s\u00e3o pobres, vivem em casinhas mal constru\u00eddas, onde falta qualquer conforto, vestem como podem, num ambiente feito esteticamente de arranjos e remendos. Trabalham como diaristas, faxineiras, cozinheiras, atendentes de bar, de posto de gasolina. S\u00e3o quase todas negras, provindas da dilacera\u00e7\u00e3o tricenten\u00e1ria provocada pela escravid\u00e3o de seus ancestrais e sofrendo formas sutis de discrimina\u00e7\u00e3o por causa da cor de sua pele. Por ser um centro de narcotr\u00e1fico, elas sofrem com toda a vizinhan\u00e7a a trucul\u00eancia da pol\u00edcia que as acorda aos gritos, rompe suas portas com os p\u00e9s e invade arbitrariamente seus pequenos domic\u00edlios. No entanto: est\u00e3o prontas para o trabalho com as crian\u00e7as, para reunir as m\u00e3es e tratar de assuntos de resgate de suas vidas material e moralmente. Tem uma enorme facilidade para o humor e para a a\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria. Adaptaram dois \u201clemas\u201d para sua m\u00edstica local: \u201ccarregar os fardos uns dos outros \u2013 \u00e9 cumprir toda a lei de Cristo\u201d(Cf. Gal 6,2); \u201cA gente faz o que pode\u201d \u2013 faz-se tudo o que est\u00e1 ao alcance, mas uma vez que se faz o que se pode, se tem raz\u00f5es para ficar feliz sem sentimentos de culpa, sem cobran\u00e7as. \u00c9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia interior.<\/p>\n<p>Estas mulheres descobriram que tudo o que se d\u00e1 aos demais tamb\u00e9m se recebe em dobro, em humanidade e entusiasmo \u2013 na linha do c\u00eantuplo evang\u00e9lico. E, sobretudo, descobriram que h\u00e1 um dom no qual n\u00e3o s\u00e3o inferiores a quem tem muitos recursos para dar: o dom do tempo. Elas sabem por experi\u00eancia di\u00e1ria que, para \u201ccarregar os fardos uns dos outros\u201d seria muito bom ter dinheiro, conhecimentos, recursos. E que s\u00f3 conseguem estar juntas para carregar a tristeza da impot\u00eancia diante da dor, do crime, da perda, da falta de recursos. Mas o dom do pr\u00f3prio tempo, de forma gratuita, depois do trabalho ou no final da semana, \u00e9, na experi\u00eancia delas, o dom mais rico que pessoas ricas n\u00e3o t\u00eam a mais que elas. Dar de seu tempo nos domingos, nas horas extras, tornou-se a prova maior de seu amor. \u00a0<\/p>\n<p>Enfim, em meio \u00e0 agressividade do ambiente f\u00edsico e psicol\u00f3gico, utilizando frequentemente de palavras duras e pux\u00f5es de orelhas para manter um m\u00ednimo de ordem, estas mulheres, em suas a\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias, tem certeza de que amam as crian\u00e7as e a comunidade, e sabem que s\u00e3o respeitadas e queridas. Ocorre-me perguntar, olhando para elas em reuni\u00f5es, ou na liturgia em que tomam a palavra, em todo momento de bom humor, se elas n\u00e3o s\u00e3o a continuidade viva das santas-prostitutas que precedem no Reino de Deus, filhas de Maria, n\u00e3o mais da associa\u00e7\u00e3o de fita azul e ter\u00e7o na m\u00e3o, mas das Marias da vida, das santas-prostitutas e das Marias do evangelho que providenciavam recursos para o grupo de Jesus (Cf. Lc 8,1-3)<\/p>\n<p>Em 2005, por ocasi\u00e3o da quinta edi\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum Social Mundial em Porto Alegre, estas mulheres foram participar alegremente das oficinas oferecidas numa tenda especialmente organizada por feministas lideradas pela Marcha Mundial das Mulheres, um espa\u00e7o que foi chamado \u201cPlaneta F\u00eamea\u201d. Diante dos discursos sobre constru\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, sobre o pr\u00f3prio corpo, sobre aborto, etc. elas foram se retirando, repetindo umas para as outras: n\u00f3s criamos at\u00e9 os filhos dos outros! Nossa autoestima est\u00e1 em nosso trabalho com a comunidade, com as crian\u00e7as! E riam por n\u00e3o entenderem tais discursos feministas.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong>Santidade e marginalidade: a misteriosa conex\u00e3o.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Esta realidade nos remete \u00e0 santidade jesu\u00e2nica, um \u201cjudeu marginal\u201d (John Meier), que proveio de um povoado desanimador, que se deixou tocar por impuros e sentou-se com pecadores, que teve entre seus seguidores mulheres e disc\u00edpulos de m\u00e1 fama, e que afinal morreu crucificado entre malfeitores. Se ele \u00e9 o c\u00e2none por excel\u00eancia da santidade crist\u00e3 florescida em Israel, \u00e9 tamb\u00e9m verdade que Israel foi um caminho tortuoso que desabrochou nesta santidade tipicamente jesu\u00e2nica. De fato, pode-se fazer aproxima\u00e7\u00f5es etimol\u00f3gicas estimulantes: Israel \u2013 o que luta com Deus ou simplesmente <em>Deus luta<\/em> \u2013 como Abra\u00e3o e Isaac, s\u00e3o <em>hebreus<\/em>, os que andam atravessando fronteiras, separados e \u00e0 margem. Essa mesma conex\u00e3o etimol\u00f3gica pode ser encontrada na santidade das coisas do culto: santificado \u2013 de <em>kadosh <\/em>&#8211; \u00e9 o que, por causa da santidade transcendental de Deus, est\u00e1 separado, posto \u00e0 margem. \u00c9 verdade que, neste caso, a santidade tem o sentido de separa\u00e7\u00e3o para manter a pureza e a integridade em respeito ao transcendente. Mas esta santidade com sentido de pureza e integridade pode ser unida ao sentido de <em>hebreu<\/em>, o errante e desgarrado \u00e0s margens das cidades e povoados da Cana\u00e3? Claro: Em Jesus, em seus disc\u00edpulos, nas santas-prostitutas, nas l\u00edderes de pastoral da Vila Maria da Concei\u00e7\u00e3o, esta conex\u00e3o \u00e9 leg\u00edtima. Este \u00e9 o c\u00e2none crist\u00e3o, mais jesu\u00e2nico do que eclesiol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Exatamente por viver no mesmo espa\u00e7o de traficantes, pequenos e alguns grandes criminosos, em meio \u00e0 viol\u00eancia sempre iminente, gente de p\u00e1gina policial, muitos moradores da Vila Maria da Concei\u00e7\u00e3o me explicaram reiteradas vezes que eles s\u00e3o \u201cmarginalizados\u201d mas n\u00e3o s\u00e3o \u201cmarginais\u201d, que entre eles h\u00e1 marginais \u2013 os que se decidem por uma vida de crimes \u2013 mas nem todos. A verdade \u00e9 que, justamente \u00a0na condi\u00e7\u00e3o de marginalizadas, as lideran\u00e7as da Pastoral da Crian\u00e7a, no entanto, resgatam outros marginalizados, especialmente as crian\u00e7as, como precen\u00e7\u00e3o de se tornarem marginais. Elas s\u00e3o redentoras inclusive \u201cpor preserva\u00e7\u00e3o\u201d, tal como a Imaculada na teologia de Duns Scotus! S\u00e3o verdadeiras seguidoras do Messias. Participam de sua santidade sem beleza e sem poder, sem enfeites e sem consci\u00eancia de uma vida de perfei\u00e7\u00e3o. Quando se fala da santidade das que j\u00e1 morreram, elas se comovem em sua convic\u00e7\u00e3o, mas se ouvem falar que elas portam tamb\u00e9m uma verdadeira santidade, elas riem. Sabem que n\u00e3o cabem nos c\u00e2nones que se tem a respeito dos santos e sobretudo das santas, que estas devem ser belas, puras, recatadas, com tempo para cultivo da vida de ora\u00e7\u00e3o, tudo o que elas sabem que n\u00e3o s\u00e3o nem nunca v\u00e3o conseguir ser. Em sua experi\u00eancia pragm\u00e1tica, sincr\u00e9tica, simplesmente amam a Deus \u2013 \u00e0s vezes brigam com Deus a partir de sua f\u00e9 &#8211; e amam as crian\u00e7as, amam o que fazem. E quando, em meio \u00e0 liturgia, lembram seus vivos e mortos, rezam por criminosos que ajudaram as crian\u00e7as, que morreram mal, ou rezam n\u00e3o s\u00f3 lembrando suas santas preferidas, como Santa Bakhita, mas tamb\u00e9m Maria Degolada, j\u00e1 fazendo ora\u00e7\u00e3o de pedidos a ela.<\/p>\n<p>A quem muito ama, muito se perdoa e vice-versa (Cf Lc 7, 47), e quem muito ama tem o essencial da santidade crist\u00e3. A marginalidade \u00e9 o lugar da prova do amor desnudado, <em>ken\u00f3tico<\/em>, sem normas nem enfeites nem consolos, em que a santidade resplandece sem ideologia e sem interesse, em estado puro. Esta \u00e9 paradoxalmente, a pureza realista da santidade crist\u00e3: na marginalidade pr\u00f3pria de Cristo, \u201co mesmo, ontem e hoje; ele o ser\u00e1 para a eternidade! (&#8230;) para santificar o povo por seu pr\u00f3prio sangue, sofreu do lado de fora da porta. Saiamos, portanto, ao seu encontro fora do acampamento, carregando a sua humilha\u00e7\u00e3o\u201d (Hb 13, 8;12-13) \u2013 na marginalidade social, onde as prostituas nos precedem no Reino.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Este artigo foi bublicado na Revista <em>Concilium<\/em>, sobre \u201cSantos e santidade hoje\u201d, n.351 (2013\/3).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Esta palavra prov\u00e9m do nome do escritor grego, Evh\u00eameros, contempor\u00e2neo de Alexandre (316 AC), cujo ensinamento era de que os deuses tinham sido antes humanos, e que se tornaram deuses por suas qualidades especiais enquanto humanos.\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> FAGUNDES Ant\u00f4nio Augusto, <em>As santas prostitutas. <\/em>Um estudo de devo\u00e7\u00e3o popular no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1987. O autor \u00e9 um conhecido folclorista, poeta, pesquisador. Para este livro, que corresponde \u00e0 sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, ele dedicou anos de pesquisa em torno do sentido social da religi\u00e3o e pesquisas de campo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Nesta vila de Porto Alegre, eu mesmo, j\u00e1 com vinte e cinco anos de acompanhamento pastoral, tenho conhecimento direto do assunto com certa profundidade.\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> O \u201cCurador ferido\u201d diz respeito, sobretudo, ao personagem m\u00edtico Qu\u00edron, metade animal e metade humano e s\u00e1bio, o centauro educador de H\u00e9rcules, ferido pelo disc\u00edpulo em sua parte animal, que toma recurso de sua pr\u00f3pria ferida para curar a outros. Ultimamente tem chamado a aten\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, da psicoterapia, da psiquiatria e tamb\u00e9m da psicologia social. Lembra tamb\u00e9m o \u201cServo Sofredor de Jav\u00e9\u201d, que carregou nossas enfermidades e por cujas chagas somos curados. Na tradi\u00e7\u00e3o africana Yourub\u00e1, a narrativa em torno do orix\u00e1 Xapan\u00e3 ou Obaluai\u00ea, senhor das doen\u00e7as, nos aponta para a mesma estrutura do Curador ferido.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> <em>Ibidem <\/em>p97-98.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> O filme brit\u00e2nico de 1986, dirigido por Roland Joff\u00e9 e sonorizado por Ennio Morricone, foi premidado nos mais importantes festivais de cinema.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Cf. o estudo de campo e te\u00f3rico detalhado em DOS ANJOS Gabriele, <em>Mulheres todas santas: <\/em>participa\u00e7\u00e3o de mulheres em organiza\u00e7\u00f5es religiosas e defini\u00e7\u00f5es de condi\u00e7\u00e3o feminina em Igrejas crist\u00e3s no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: funda\u00e7\u00e3o de economia e estat\u00edstica Siegfried\u00a0 Emanuel Heuser, 2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confira no artigo do frei franciscano e te\u00f3logo Luiz Carlos Susin uma reflex\u00e3o de f\u00f4lego abordando a conex\u00e3o entre santidade e marginalidade, &#8220;o que integra o esc\u00e2ndalo e a loucura que est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da f\u00e9 e da experi\u00eancia crist\u00e3 de santidade&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"template":"","class_list":["post-1357","artigos","type-artigos","status-publish","hentry"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.2 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Santidade e marginalidade (artigo de Luiz Carlos Susin) - Instituto Cultural Padre Josimo<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/artigos\/santidade-e-marginalidade-artigo-de-luiz-carlos-susin\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Santidade e marginalidade (artigo de Luiz Carlos Susin) - 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