{"id":1348,"date":"2019-02-11T13:05:21","date_gmt":"2019-02-11T15:05:21","guid":{"rendered":"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/?post_type=artigos&#038;p=1348"},"modified":"2019-02-11T13:05:21","modified_gmt":"2019-02-11T15:05:21","slug":"sepe-tiaraju-e-a-identidade-gaucha","status":"publish","type":"artigos","link":"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/artigos\/sepe-tiaraju-e-a-identidade-gaucha\/","title":{"rendered":"Sep\u00e9 Tiaraju e a identidade ga\u00facha"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1349\" aria-describedby=\"caption-attachment-1349\" style=\"width: 672px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1349\" src=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/sep\u00e9-camara-1024x658.jpeg\" alt=\"\" width=\"672\" height=\"432\" srcset=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/sep\u00e9-camara-1024x658.jpeg 1024w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/sep\u00e9-camara-300x193.jpeg 300w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/sep\u00e9-camara-768x494.jpeg 768w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/sep\u00e9-camara.jpeg 1280w\" sizes=\"(max-width: 672px) 100vw, 672px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1349\" class=\"wp-caption-text\">(ilustra\u00e7\u00e3o de Sep\u00e9 integrante da publica\u00e7\u00e3o &#8220;Sep\u00e9 tiaraj\u00fa: her\u00f3i guarani, missioneiro, riograndense e, agora, her\u00f3i brasileiro&#8221;, editada pela C\u00e2mara dos Deputados)<\/figcaption><\/figure>\n<p>J\u00e1 entre os gregos, h\u00e1 vinte e cinco s\u00e9culos, a narrativa &#8211; e a mem\u00f3ria nela transmitida &#8211; tinha import\u00e2ncia decisiva na forma\u00e7\u00e3o da identidade humana. Assim, contava-se que em Tebas uma esfinge desafiava a cidade: \u201cDecifra-me ou devoro-te!\u201d E, enquanto a quest\u00e3o n\u00e3o era resolvida, exigia sacrif\u00edcios peri\u00f3dicos de preciosas vidas humanas. O enigma consistia em saber quem seria o animal que anda com quatro pernas pela manh\u00e3, com duas ao meio-dia e com tr\u00eas \u00e0 tarde. Ora, \u201c\u00e9 o ser humano\u201d, decifrou \u00c9dipo, livrando a cidade da sua assombra\u00e7\u00e3o ao considerar o arco da aventura humana neste mundo, decifragem de vida ou morte. Pois o Rio Grande do Sul e a identidade ga\u00facha t\u00eam uma esfinge de duas faces: \u201cS\u00e3o\u201d Sep\u00e9 Tiaraju e o Negrinho do Pastoreio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Identidade de fronteira.<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>A identidade ga\u00facha est\u00e1 marcada pela viol\u00eancia da fronteira, desde bem antes da demarca\u00e7\u00e3o final das fronteiras, dos in\u00edcios do s\u00e9culo XIX, que n\u00e3o deixou de ser uma demarca\u00e7\u00e3o belicosa<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. \u00c9, em conseq\u00fc\u00eancia, uma identidade \u201cfronteiri\u00e7a\u201d, de \u201cfrontes\u201d e \u201cconfrontos\u201d, ambiguamente belicosa e hospitaleira ao mesmo tempo. Moldou-se \u00e0 luz de uma rela\u00e7\u00e3o perigosa de incurs\u00f5es, de conquistas e de defesas, de vigil\u00e2ncia dificultada pela vastid\u00e3o pampeana, quase uma \u201cterra de fundo\u201d, corredor para bandeirantes e castelhanos. Sem contar com o que h\u00e1 de mais prim\u00e1rio, at\u00e9 origin\u00e1rio, na figura ga\u00facha, que s\u00e3o os desgarrados de ambos os lados, os \u201cvagos\u201d, que andavam sem quer\u00eancia nem p\u00e1tria definida, pe\u00f5es e gaud\u00e9rios sem la\u00e7os e sem autoridades, o ga\u00facho descrito no personagem Martin Fierro, de Hernandez.<\/p>\n<p>Mesmo depois de sua defini\u00e7\u00e3o, o Rio Grande do Sul (RS) permanece com uma tend\u00eancia obsessiva, repetitiva, inclinada a um dualismo de fronteira, dividido entre companheiros e inimigos, resolvido na \u201cdegola\u201d. \u201cXimangos e maragatos\u201d, no confronto da Revolu\u00e7\u00e3o Federalista de 1893-95, s\u00e3o figuras desse dualismo repetitivo que vem de antes ainda da Guerra Farroupilha (1835-1845), e se repete mimeticamente, numa reciclagem de formas mais sofisticadas de degola \u201cda outra metade\u201d, avatares que consomem muitas energias, desencantam sonhos e travam possibilidades de verdadeiro progresso com paz para todos at\u00e9 nossos dias. Nas batalhas pol\u00edticas, por exemplo, em que estamos sempre belicosamente divididos e querendo calorosamente o pesco\u00e7o do advers\u00e1rio. Na quest\u00e3o fundi\u00e1ria, na luta pela terra, nosso calcanhar exposto, nem se fala. Mas o que seria do ga\u00facho e da sua hombridade sem um inimigo, sem uma \u201cpeleia\u201d, sem um confronto, sem uma arma? \u00c9 s\u00f3 pisar no pala que o rev\u00f3lver fala, como cantava Teixeirinha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>V\u00edcios de interpreta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Uma real pacifica\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul precisa come\u00e7ar com a reabertura de um doloroso<em> dossi\u00ea <\/em>de suas origens, um dossi\u00ea escondido do ponto de vista <em>pol\u00edtico<\/em>, <em>acad\u00eamico<\/em> e <em>religioso<\/em>.<\/p>\n<ol>\n<li>a) Pol\u00edtico: com J\u00falio de Castilhos, no final do s\u00e9culo XIX, abriram-se as portas da aristocracia de Porto Alegre para o positivismo e para o novo regime republicano, que deveria ser higienizado de toda barb\u00e1rie e integrado numa primeira onda de modernidade brasileira. A imposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m belicosa do positivismo republicano, um facho de iluminismo na capital, confrontava-se com os latifundi\u00e1rios orgulhosos de sua autonomia no campo, e deste confronto jorrava sangue com degola campo afora. Esse idealismo castilhista permitiu \u00e0 nossa pol\u00edtica de fronteira ser tanto o vanguardismo da Ordem e do Progresso como o ber\u00e7o da ditadura a ferro e fogo<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/li>\n<li>b) Acad\u00eamico: o positivismo ou cientificismo acad\u00eamico escondeu ou varreu da hist\u00f3ria e da forma\u00e7\u00e3o da identidade ga\u00facha tudo o que poderia envergonhar a aristocracia, tudo \u2013 ou quase tudo &#8211; o que se conta na mem\u00f3ria popular cabocla, bugre e negra, remanescente do extravio ind\u00edgena e da escravid\u00e3o africana em nossas terras. Os her\u00f3is e seus monumentos foram selecionados sob o crivo de uma modernidade branca e gloriosa. Lendas, mitos, \u201ccausos\u201d, essas formas de resist\u00eancia da mem\u00f3ria dos dominados e envergonhados pela cultura oficial, foram desclassificadas como incapazes de servirem de documenta\u00e7\u00e3o ou ao menos como ind\u00edcios de verdades hist\u00f3ricas de um Rio Grande profundo e escondido. As belas hist\u00f3rias populares s\u00f3 poderiam ser inven\u00e7\u00f5es de intelectuais rom\u00e2nticos, segundo esta interpreta\u00e7\u00e3o pedante. E, ironicamente, quando, em meados do s\u00e9culo XX, a historiografia come\u00e7ou a desvestir os her\u00f3is e seus feitos, ainda assim n\u00e3o permitiu distinguir entre os her\u00f3is vencedores \u2013 de tradi\u00e7\u00e3o grega, em que verdade e vit\u00f3ria coincidem &#8211; e os \u201cher\u00f3is\u201d dos vencidos, transmitidos pela narrativa popular cheia de s\u00edmbolos e sinais de transcend\u00eancia humana, como o \u201clunar de Sep\u00e9\u201d que se tornou o Cruzeiro do Sul. Alguns personagens, como Blau Nunes das narrativas criadas por Sim\u00f5es Lopes Neto, s\u00e3o mais o \u201canti-her\u00f3i\u201d, personagem honesto e pobre, contente com seu cavalo sem pretender grandes feitos. Sem entender que a narrativa popular interpreta o outro lado da hist\u00f3ria e que provoca resist\u00eancia e faz caminho na hist\u00f3ria dos que n\u00e3o constam na hist\u00f3ria oficial, a historiografia simplesmente colocou todos os her\u00f3is no mesmo balaio. Todos criados por interesses de intelectuais! Assim, dos her\u00f3is populares, como Sep\u00e9 Tiaraju, n\u00e3o sobraria quase nada nessa m\u00e1quina de tortura historiogr\u00e1fica.<\/li>\n<li>c) Religioso: o catolicismo romanizado, por sua vez, ergueu a catedral de Porto Alegre sobre cabe\u00e7as de figuras ind\u00edgenas esmagadas \u2013 outra forma da degola &#8211; como s\u00edmbolo da vit\u00f3ria sobre a antiga supersti\u00e7\u00e3o. \u00c9 um gesto simb\u00f3lico de enorme viol\u00eancia religiosa que ainda necessita, conforme os \u00faltimos Papas, de \u201cpurifica\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria\u201d e de reden\u00e7\u00e3o aos p\u00e9s dos sobreviventes e de seus mortos. A ambig\u00fcidade do elemento religioso, desde os tempos das pr\u00f3prias Miss\u00f5es, provocou hero\u00edsmo, como, por exemplo, a possibilidade de sobreviv\u00eancia ind\u00edgena com alguma dignidade e sem escravid\u00e3o dentro do ventre dos imp\u00e9rios ib\u00e9ricos na forma de um sincretismo missioneiro, mas tamb\u00e9m jogou cada vez mais no dil\u00favio da supersti\u00e7\u00e3o tudo o que n\u00e3o viesse da religi\u00e3o do branco civilizado e cada vez mais romanizado.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A fachada e os fundos da alma ga\u00facha<\/strong><\/p>\n<p>A alma e a m\u00edstica dos povos nativos, ind\u00edgenas, e dos povos afro-descendentes se refugiaram e se sintomatizaram no \u201ccauso\u201d, na pajea\u00e7\u00e3o, na narrativa simplesmente oral, e numa certa literatura. Um bom exemplo, seguido por admir\u00e1veis ga\u00fachos de sensibilidade e talento, \u00e9 Sim\u00f5es Lopes Neto, que teve o cuidado de dar forma liter\u00e1ria \u00e0 sua paciente escuta e \u00e0s suas notas junto \u00e0 gente simples do povo e suas mem\u00f3rias. Interpretar suas informa\u00e7\u00f5es apenas como recurso liter\u00e1rio para justificar algum populismo liter\u00e1rio seria uma viol\u00eancia intelectual. \u00c9 tamb\u00e9m pretender exagerado poder ao intelectual, como criador de mentalidades populares. Ora, quem conhece o povo sabe que h\u00e1 uma saud\u00e1vel resist\u00eancia e desconfian\u00e7a diante do \u201cdoutor\u201d e seus racioc\u00ednios. \u00c9 mais justo interpretar pelo avesso, como Sim\u00f5es Lopes Neto confessa: que se enriqueceu muito em ouvir inclusive velhas do povo.<\/p>\n<p>A identidade ga\u00facha foi sendo breteada para a est\u00e2ncia. E ganhou, depois, j\u00e1 em meados do s\u00e9culo XX, passando do campo para a cidade, na cria\u00e7\u00e3o dos Centros de Tradi\u00e7\u00e3o Ga\u00facha (CTG), uma forma de estetiza\u00e7\u00e3o ritual e controle da viol\u00eancia do dualismo perigoso que insiste em perseguir e criar curtos-circuitos no campo e na cidade. O CTG reproduz, mesmo na cidade moderna, a antiga est\u00e2ncia, a paisagem do campo j\u00e1 domada pela est\u00e2ncia e pela estratifica\u00e7\u00e3o entre patr\u00f5es, capatazes, pe\u00f5es, as mulheres sendo \u201cchinocas\u201d e prendas dos homens. A ambig\u00fcidade dos CTGs, criados num esfor\u00e7o de afirma\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m de terapia da identidade, que reproduz esteticamente, ritualmente, ao mesmo tempo busca controlar a viol\u00eancia ga\u00facha de faca na bota, de len\u00e7o branco ou colorado, de cartuxeira e lan\u00e7a, controle que acontece exatamente atrav\u00e9s do ritual da viol\u00eancia, sua encena\u00e7\u00e3o. Parece, no entanto, n\u00e3o dar mais conta das novas dissemina\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e de vontade de degola como solu\u00e7\u00e3o radical. Estamos, tamb\u00e9m na \u00e1rea urbana, cada vez mais \u201cpisando no pala\u201d e cada vez mais \u201co rev\u00f3lver fala\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A viol\u00eancia e a chance da identidade que assombra<\/strong><\/p>\n<p>Em tempos de alta dissemina\u00e7\u00e3o e contamina\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio um rem\u00e9dio homeop\u00e1tico, buscando nas fontes do veneno o pr\u00f3prio rem\u00e9dio. Se n\u00e3o for assim, come\u00e7a-se a tentar solu\u00e7\u00f5es radicais, cujo modelo perfeito \u00e9 o linchamento.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9, propriamente, nas lendas e nos causos, nas figuras m\u00edticas, nos gemidos que ainda se escutariam nas regi\u00f5es das charqueadas ou das regi\u00f5es missioneiras que est\u00e3o as assombra\u00e7\u00f5es a nos gelar a espinha. Est\u00e3o vivas nos rostos indi\u00e1ticos e negros, mesti\u00e7os e caboclos \u2013 tudo o que passa de branco &#8211; que jazem vivos como esfinges nas periferias, nas vilas e nos \u00f4nibus da \u00e1rea metropolitana, arranchados por todo canto nas periferias das cidades, identidades desgarradas, normalmente silenciosas, exceto na inquieta\u00e7\u00e3o adolescente e nos sofrimentos excessivos, na vergonha e no desprezo insuport\u00e1veis, e sobretudo na falta de futuro e dignidade por falta de trabalho. Esses rostos e esses corpos n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o vis\u00edveis para a aristocracia, seja ela acad\u00eamica, pol\u00edtica ou eclesi\u00e1stica, que anda a cavalo com vidro fume, cada vez mais protegida, e que n\u00e3o circula pelas periferias ou de \u00f4nibus de vila como os \u201cpe\u00f5es\u201d calejados ou desgarrados.<\/p>\n<p>Se culturalmente e socialmente, em nosso meio, \u201cquem passa de branco, negro \u00e9\u201d, o mesmo se pode dizer dos descendentes ind\u00edgenas mesti\u00e7ados campo a fora e nas periferias onde est\u00e1 o \u201cpobrerio\u201d, como diria Sim\u00f5es Lopes Neto. E h\u00e1 multid\u00f5es ao nosso redor, quando se decide observar melhor. Desmemoriados por um lado, mas continuando a contar suas narrativas por outro, sem mesmo saber bem por que. Os vazios de suas mem\u00f3rias e a baixa auto-estima de seus rostos ou cabelos e sotaques, do seu fraseado e suas \u201ctiradas\u201d, s\u00e3o ingredientes perigosos para a viol\u00eancia indomada do ga\u00facho. Mas suas narrativas e sua sabedoria, como bem percebeu o mesmo Sim\u00f5es Lopes Neto, s\u00e3o a resist\u00eancia de uma dignidade anterior a todo dualismo fronteiri\u00e7o, a possibilidade da hospitalidade de um \u201cterceiro\u201d que sempre foi v\u00edtima de ambos os lados, e que tem o segredo da remiss\u00e3o e da reconcilia\u00e7\u00e3o \u2013 as v\u00edtimas sobreviventes que t\u00eam o poder de resgatar os vencedores manchados de sangue. Contanto que tenham chance de resgatar sua auto-estima no reconhecimento de sua dignidade.<\/p>\n<p>O reconhecimento desses \u201cterceiros\u201d anteriores, batidos e vitimados entre a rocha e o mar do dualismo de fronteira ga\u00facha, e a reconcilia\u00e7\u00e3o real e completa a partir dos vivos remanescentes, comporta, no entanto, que n\u00e3o se deixe de fora os que foram mortos. Onde h\u00e1 v\u00edtimas que foram mortas, os seus vivos s\u00f3 podem se reconciliar e perdoar se os mortos, em comunh\u00e3o com os vivos, assinalam que tamb\u00e9m perdoam. Os vivos, em si, n\u00e3o t\u00eam poder de perdoar em nome dos mortos. Onde h\u00e1 mortos, como no exemplo doloroso do Oriente M\u00e9dio atual, \u00e9 complicado superar a exig\u00eancia e a dignidade da vingan\u00e7a justa em favor de uma reconcilia\u00e7\u00e3o com nova oportunidade para todos.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de Sep\u00e9 Tiaraju, uma das figuras ao mesmo tempo hist\u00f3ricamente real e, no entanto, sobretudo, legend\u00e1ria porque incorpora uma multid\u00e3o de rostos, olhos e corpos, sentimentos e almas que nos assombram mas que podem ser a nossa chance.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sep\u00e9 Tiaraju: com o Negrinho do Pastoreio, o \u201csacrif\u00edcio fundante\u201d da identidade ga\u00facha?<\/strong><\/p>\n<p>Se o alferes e depois corregedor (ou apenas capit\u00e3o) da cidade missioneira de S\u00e3o Miguel fosse apenas o mito tr\u00e1gico e brilhante em que se tornou, se fosse apenas uma lenda com sucesso, como o Negrinho do Pastoreio, se S\u00e3o Sep\u00e9 estivesse mais para S\u00e3o Jorge ou Santo Expedito do que para Santo Ant\u00f4nio, ainda assim, e exatamente assim \u2013 como mito fundante e significante \u2013 teria uma import\u00e2ncia hist\u00f3rica e hagiogr\u00e1fica, sagrada, decisiva na forma\u00e7\u00e3o da identidade ga\u00facha.<\/p>\n<p>De Santo Ant\u00f4nio se sabe que a sua hist\u00f3ria pessoal \u00e9 muito diferente das narrativas e cren\u00e7as em torno de sua figura popular. Ele \u00e9 hist\u00f3ria e mito ao mesmo tempo. Mas o mito, as narrativas lend\u00e1rias, tem mais capacidade de produzir hist\u00f3ria ao longo das gera\u00e7\u00f5es do que sua historiografia pessoal. J\u00e1 S\u00e3o Jorge e Santo Expedito n\u00e3o t\u00eam sequer registros hist\u00f3ricos, apenas narrativas e f\u00e1bulas populares. Como o Negrinho do Pastoreio, eles representam um grande n\u00famero de soldados que fizeram obje\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia, que disseram \u201cn\u00e3o\u201d \u00e0 viol\u00eancia institucional do Imp\u00e9rio Romano e do seu ex\u00e9rcito, portanto lutaram com o \u201cdrag\u00e3o\u201d e foram executados como \u201canti-her\u00f3is\u201d. Na dureza da historiografia, foram todos justamente mortos. Mas se tornaram mem\u00f3ria da for\u00e7a dos que aparentemente n\u00e3o t\u00eam for\u00e7a nenhuma, dos que n\u00e3o tem poder mas tem uma grande verdade. Na dura hist\u00f3ria foram v\u00edtimas, martirizados por seus ideais, mas na hist\u00f3ria das gera\u00e7\u00f5es, se tornaram fontes de for\u00e7as para os que continuam sendo esmagados pelos prepotentes que triunfam na hist\u00f3ria. Santos canonizados pelo povo ( ou \u201cencantados\u201d, se diria no Tambor de Minas da Amaz\u00f4nia), s\u00e3o aceitos em sil\u00eancio pela Igreja oficial.<\/p>\n<p>Sep\u00e9 Tiaraju, o \u201cS\u00e3o\u201d Sep\u00e9, tem algo parecido, mas tem algo mais que incomoda. Como um S\u00e3o Luiz IX e uma Santa Joana D\u2019Arc para a identidade da Fran\u00e7a profunda e moderna, que foram pol\u00edticos de corpo e alma, sem hesitar em pegar em armas e incitar \u00e0 cruzada e \u00e0 guerra. Tornaram-se divisores de identidade, inc\u00f4modos para uns e her\u00f3is para outros. Esses santos franceses, na verdade, foram fi\u00e9is cumpridores de uma cristandade em que mandar executar e ser santo era poss\u00edvel. Mas Sep\u00e9, para defender seu povo e o direito \u00e0 vida de suas crian\u00e7as, precisou transgredir os c\u00e2nones de sua cristandade.<\/p>\n<p>Em certo sentido, Sep\u00e9 est\u00e1 para a hist\u00f3ria do RS como a figura hist\u00f3rica de Jesus para a literatura do Novo Testamento e para a hist\u00f3ria do cristianismo: um n\u00facleo hist\u00f3rico judaico extremamente transgressivo e muita interpreta\u00e7\u00e3o, algo como a pequena maravilha da fonte inicial e, depois, rios abundantes e fecundos. Mas sempre \u00e9 poss\u00edvel voltar \u00e0 fonte e beber dela \u00e1gua nova, inspirar-se nela quando as \u00e1guas dos rios se contaminam e n\u00e3o fecundam mais. Ao longo da hist\u00f3ria, diferentes grupos foram beber nessa fonte, como fizeram os crist\u00e3os e os mu\u00e7ulmanos ao irem beber nas fontes da figura de Abra\u00e3o, pai de Israel e de Ismael.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Negrinho do Pastoreio, esse personagem agregador de sentidos: h\u00e1 nele o custo das vidas inocentes de muitos negrinhos de carne e osso pelo Rio Grande saladeiro das charqueadas, desde aqueles que, conforme Saint-Hilaire, ficavam tristes em p\u00e9, escorados \u00e0 parede, sem brincar e maltratados pelo filho da casa, como moleques de recados. Exatamente quando seu monumento dolorosamente tra\u00e7ado por Vasco Prado \u00e9 colocado pelos CTGs em nossas pra\u00e7as, ele \u00e9 como o ovo do patinho feio que poder\u00e1 revelar um cisne em meio aos outros patos de nossa identidade ga\u00facha plural. Claro, se olharmos para tr\u00e1s e para frente: montado no cavalo escatol\u00f3gico do Negrinho do Pastoreio ou no cavalo encilhado de Sep\u00e9 Tiaraju est\u00e3o os descendentes todos de africanos triturados pelas charqueadas e de nativos derrubados pelas duas coroas ib\u00e9ricas e pelas imigra\u00e7\u00f5es sucessivas. Na vida real continuam ga\u00fachos pe\u00f5es e usu\u00e1rios de coletivos, de periferia e beira de estrada, que se re\u00fanem em \u201cgauchada\u201d ou \u201cindiada\u201d, em torno de algum \u201c\u00edndio velho\u201d ou ainda melhor \u201cq\u00fcera velho\u201d: s\u00e3o palavras e ind\u00edcios de uma identidade mais antiga, mais ancestral e mais enraizada do que a identidade ga\u00facha forjada mais ou menos oficialmente no entrevero dos confrontos de interesses resolvidos na degola e na necessidade de inventar para domar pela est\u00e9tica e pelo ritual dos CTGs a viol\u00eancia e as suas assombra\u00e7\u00f5es. Somente a partir deles, da sua poderosa mensagem, a identidade ga\u00facha poder\u00e1 ter um futuro reconciliado e pacificado, dedicado ao real progresso com dignidade para todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Alian\u00e7a dos sacrificados sob o progresso do RS<\/strong><\/p>\n<p>O Negrinho do Pastoreio, narrativa recolhida e consagrada por Sim\u00f5es Lopes, \u00e9 a hist\u00f3ria cifrada dos que n\u00e3o tem os meios oficiais de documentar a sua hist\u00f3ria, narrativa situada no RS anterior \u00e0s charqueadas, \u00e0s est\u00e2ncias e \u00e0s cercas, no tempo do gado solto, chimarr\u00e3o, jesu\u00edtico. Faz, portanto, como o juiz da carreira em cancha reta da narrativa &#8211; um \u00edndio velho do tempo missioneiro &#8211; um enlace com a hist\u00f3ria das Miss\u00f5es pelo caminho da narrativa popular. Na real: o gado missioneiro, abundante e disperso pelo tr\u00e1gico fim das cidades guaranis, tornou-se, com o agro-neg\u00f3cio, o fio dourado da economia ga\u00facha passando pelas charqueadas com trabalho escravo dos negros e pela ind\u00fastria coureiro-cal\u00e7adista at\u00e9 nossos dias.<\/p>\n<p>Com a entrada de novas migra\u00e7\u00f5es europ\u00e9ias o RS se divide tamb\u00e9m economicamente em duas metades. As migra\u00e7\u00f5es, desde os a\u00e7orianos, foram introduzidas dentro de projetos de ocupa\u00e7\u00e3o e desenvolvimento do espa\u00e7o sem nenhuma considera\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 contra a popula\u00e7\u00e3o nativa derrotada, espantada e dispersa, tornada \u201c\u00edndio vago\u201d ou ent\u00e3o \u201c\u00edndio do mato\u201d, \u201cbugre\u201d que se evita como a \u00e1rvore braba, aquela que agride pela sua inocula\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncia al\u00e9rgica. E ningu\u00e9m quer se reconhecer filho de bugre, apesar de sua bela pele, de seus olhos e de seu cabelo. Na linguagem sussurrada do povo, sobretudo a \u00edndia, a \u201cchina\u201d, a av\u00f3 bugra, \u00e9 aquela que, normalmente ainda menina, passou pela viola\u00e7\u00e3o, uma ferida e uma profana\u00e7\u00e3o de uma exist\u00eancia sagrada demais para suportar a dor da volta \u00e0 consci\u00eancia. O sil\u00eancio \u00e9 o b\u00e1lsamo da dist\u00e2ncia \u00e0 custa de um vazio de mem\u00f3ria e identidade. Nesse sentido, as popula\u00e7\u00f5es mesti\u00e7as do RS, provindas dos nativos das diferentes etnias que aqui viviam e provindas dos africanos trazidos como escravos t\u00eam as mesmas feridas, os mesmos sil\u00eancios, a dor da viola\u00e7\u00e3o ainda latejando, a crise familiar e institucional ainda mal resolvida, a auto-estima ainda a ser recuperada. O \u201corgulho ga\u00facho\u201d ainda n\u00e3o \u00e9 do povo pe\u00e3o, continua a ser privil\u00e9gio da aristocracia montada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Necessidade de Mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>Antes do dualismo tr\u00e1gico de fronteira a marcar a identidade ga\u00facha est\u00e1 Sep\u00e9, um \u00edndio de av\u00f3s e pais crist\u00e3os, nascido e criado em cidade missioneira, no espa\u00e7o de um encontro civilizat\u00f3rio que, por muitos testemunhos deixados, e apesar das \u201clendas negras\u201d que logicamente se criaram ao seu redor at\u00e9 hoje, foi um encontro bastante criativo dentro do duro contexto e das suas reais possibilidades.<\/p>\n<p>Para os jesu\u00edtas significava a esperan\u00e7a de uma cristandade nova e cheia de promessas, melhor do que a velha cristandade europ\u00e9ia ou dos colonizadores proibidos de andarem e contaminarem as Miss\u00f5es, e da qual Padre Ant\u00f4nio Sepp, que saiu de S\u00e3o Miguel com uma leva de guaranis para fundar S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, se orgulha em seus escritos diante dos seus superiores na Europa.<\/p>\n<p>Para os guaranis missioneiros, o melhor testemunho \u00e9 o que eles mesmos escreveram: Nas cartas dos \u201ccabildos\u201d que governavam as cidades e dos caciques guaranis, que subsistiam com autoridade moral nas Miss\u00f5es, eles escreveram ao governador de Buenos Aires em resposta ao mandato do rei de Espanha de se retirarem todos os sete povos para a banda ocidental do Uruguai, deixando claro que n\u00e3o foram conquistados e submetidos \u00e0 for\u00e7a, n\u00e3o eram escravos. Seu argumento maior consiste nisso: eles mesmos chamaram os padres e aceitaram livremente a vassalagem, por\u00e9m dentro dos termos de civilidade, como s\u00faditos e n\u00e3o escravos, pois n\u00e3o poderiam aceitar, com o Tratado de Madri, sua pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o e escravid\u00e3o. N\u00e3o queriam guerra nenhuma, mas seriam obrigados a resistir. Estas cartas<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> como outros documentos indiretos<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> revelam uma grandeza de alma, uma dignidade e uma nobreza incomparavelmente acima dos dois lados que os espremiam, espanh\u00f3is e portugueses. Mesmo em termos de linguagem e argumentos crist\u00e3os, al\u00e9m de humanit\u00e1rios e pol\u00edticos. Pode-se afirmar sem exagero que eles significaram, naquele momento, o que havia de civiliza\u00e7\u00e3o, enquanto as for\u00e7as ib\u00e9ricas de ambos os reinos, de Portugal e de Castela, significaram a barb\u00e1rie que se abateu sobre eles. Torna-se irrelevante, diante disso, perguntar se eles eram espanh\u00f3is por serem vassalos do rei de Castela. Algo mais ancestral, anterior e profundo, emerge nessa condi\u00e7\u00e3o: a dignidade de suas vidas, simplesmente, esta universalidade perene do humano.<\/p>\n<p>Os \u00edndios missioneiros estavam entre o rochedo e o mar. A l\u00f3gica dos imp\u00e9rios ib\u00e9ricos, l\u00f3gica expansionista e mercantilista, n\u00e3o poderia suportar outra forma de exist\u00eancia com sucesso. Como interpretou Rodolfo Kusch, fil\u00f3sofo argentino, trata-se aqui, mais a fundo, do tr\u00e1gico conflito entre a hegemonia do <em>ser <\/em>sobre o <em>estar<\/em>: o <em>ser<\/em> se realiza no seu desdobramento atrav\u00e9s do tempo e do espa\u00e7o, identidade conquistando as diferen\u00e7as para reunir tudo em si e aumentar o seu poder de ser, e assim sucessivamente. Os gregos, com a narrativa da Odiss\u00e9ia, a viagem de Ulisses, s\u00e3o o exemplo cl\u00e1ssico desta civiliza\u00e7\u00e3o que, para se realizar, precisa se expandir, conquistar, colonizar, produzir, consumir. Sem isso n\u00e3o consegue ser feliz. Por isso \u201ca verdade do ser \u00e9 a guerra\u201d (Her\u00e1clito), inclusive a atual guerra ecol\u00f3gica com tra\u00e7os apocal\u00edpticos.<\/p>\n<p>Ora, os nativos viviam &#8211; e continuam a resistir popularmente e at\u00e9 tranq\u00fcilamente &#8211; na l\u00f3gica do \u201c<em>estar<\/em>\u201d, habitando ecologicamente uma terra em que, mais do que serem eles os propriet\u00e1rios de terras, era ela, a \u201c<em>m\u00e3e terra<\/em>\u201d, a propriet\u00e1ria deles. Por isso, nos arrazoados de Santa Tecla, diante dos demarcadores, como nas cartas dirigidas ao governador de Buenos Aires, est\u00e1 o discurso guarani sobre a terra que s\u00f3 a Deus, o Criador, pertence, dada aos nativos para que nela habitassem. A mem\u00f3ria se resumiu, como sabemos, no inc\u00f4modo grito que repercute na mem\u00f3ria subversiva at\u00e9 nossos dias: \u201cParem: Esta terra tem dono \u2013 n\u00f3s a recebemos de Deus e de S\u00e3o Miguel\u201d.<\/p>\n<p>Na l\u00f3gica ind\u00edgena \u2013 \u00e9 importante sublinhar \u2013 n\u00e3o s\u00e3o eles os donos da terra, mas Aquele que as deu para habitarem, para criarem seus filhos, enterrarem seus mortos, plantarem seus ervais e criarem seus animais, para cantarem seus cantos com o dom mais precioso que os torna humanos, as palavras, a conversa. Podem ser felizes simplesmente habitando nos ritmos da vida, em boas conversas, sem muitas coisas e sem sofistica\u00e7\u00e3o. Precisam da terra n\u00e3o para explorar, mas para habitar com simplicidade, e por isso, paradoxalmente, precisam mais terra do que os que a transformam inteira em mat\u00e9ria produtiva e neg\u00f3cio. Na verdade, s\u00e3o os guardi\u00f5es naturais da ecologia, em que o ecossistema tem a sacralidade de uma m\u00e3e. Pode-se constatar esta mentalidade e esta sensibilidade nas comunidades testemunhas e nos descendentes mesti\u00e7os ainda n\u00e3o totalmente contaminados pelo <em>ser<\/em> agressivo do Ocidente e pelo desejo mim\u00e9tico que est\u00e1 na sua base, que move a sociedade de consumo cada vez mais voraz para tentar ser feliz. Pode soar a romantismo infantil querer simplesmente sugar do seio da m\u00e3e terra. Os nativos e os sem terra querem tamb\u00e9m plantar, fazer trocas de bens da terra, mas mantendo-se na medida humana de suas fam\u00edlias e comunidades. \u00c9 nesse equil\u00edbrio entre a terra e a comunidade humana que est\u00e1 a for\u00e7a de sua mem\u00f3ria e de seu testemunho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A heran\u00e7a guarani<\/strong><\/p>\n<p>Perdida dramaticamente, a ferro e fogo, a civiliza\u00e7\u00e3o nascida do encontro da espiritualidade barroca dos jesu\u00edtas com a m\u00edstica e a sensibilidade guarani, e com a dispers\u00e3o em diversas dire\u00e7\u00f5es e destinos, os guaranis aprenderam a sobreviver atrav\u00e9s da adapta\u00e7\u00e3o silenciosa, enquanto os kaingangues preferiram recuar soberanamente para as matas, e os outros \u201cinfi\u00e9is\u201d \u00e0s coroas e \u00e0 religi\u00e3o oficial (charruas, minuanos, guenoas, mojanes, tapes, patos, etc.) foram sendo dizimados de diversas maneiras, pelo exterm\u00ednio, pela assimila\u00e7\u00e3o, pela morte simb\u00f3lica de sua l\u00edngua e cultura, t\u00e3o cruel como a morte f\u00edsica. Pode-se perguntar se os atuais guaranis t\u00eam ainda algo em comum com os seus antepassados missioneiros. Nem todos os guaranis da \u00e9poca foram missioneiros. Na hora da batalha, nem todas as cidades missioneiras se defenderam, enquanto \u00edndios \u201cinfi\u00e9is\u201d teriam se reunido aos missioneiros para combater juntos na defesa do seu espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Hoje, al\u00e9m dos povos testemunhas, que, mesmo \u00e0 beira de estrada, buscam viver em comunidades pr\u00f3prias, conservando a l\u00edngua e a m\u00edstica em torno de seus \u201c<em>kara\u00eds<\/em>\u201d, seus rezadores segundo sua religiosidade ecol\u00f3gica, h\u00e1 uma multid\u00e3o de aut\u00eanticos descendentes tr\u00e1gicos de Sep\u00e9 Tiaraju nos rostos mesti\u00e7os, de olhos amendoados, cabe\u00e7as cobertas por cabelos lisos e pretos, com o enigm\u00e1tico sorriso de um olhar meio envergonhado diante das estirpes de doutores, de poucas palavras fora de seu c\u00edrculo, verdadeiras multid\u00f5es perif\u00e9ricas das cidades ga\u00fachas que s\u00e3o a esfinge \u2013 uma esfinge de duas faces, a outra face tem cor negra, afrodescendente \u2013 a desafiar a identidade ga\u00facha e seus problemas de origem e de viol\u00eancia sist\u00eamica. Por\u00e9m, mais do que descend\u00eancia biol\u00f3gica, trata-se de uma descend\u00eancia \u201cabra\u00e2mica\u201d: os que vivem na trilha dos mesmos contextos, das mesmas lutas pela dignidade de sua gente. Todo ga\u00facho que pretenda ter orgulho de s\u00ea-lo precisa se medir com Sep\u00e9 Tiaraju, figura \u201ccanonizada\u201d \u2013 r\u00e9gua e medidor \u2013 ou figura \u201cencantada\u201d por sua eleva\u00e7\u00e3o ao c\u00e9u, que d\u00e1 a inspira\u00e7\u00e3o e a medida do modo mais verdadeiro de viver e de morrer nesta terra ga\u00facha com dignidade, at\u00e9 na \u00fanica luta em que vale a pena morrer.\u00a0<\/p>\n<p>Evidentemente, a mem\u00f3ria de Sep\u00e9, nesses 250 anos de sua morte e a de seus em torno de 1.500 companheiros sob os ex\u00e9rcitos ib\u00e9ricos em Caiboat\u00e9, n\u00e3o poder\u00e1 ser apenas celebra\u00e7\u00e3o que se torne \u00e1libi para descarrego de consci\u00eancia, catarse para continuar no esquema do sacrif\u00edcio dos mais fr\u00e1geis sem problemas de consci\u00eancia. A primeira justi\u00e7a \u00e9 o reconhecimento e a efetiva\u00e7\u00e3o da necessidade de terra e de um m\u00ednimo de meios de vida para os povos ind\u00edgenas, para que possam viver e passar em heran\u00e7a seu modo de vida comunit\u00e1ria. A sobreviv\u00eancia deles, digna e feliz, \u00e9 absolutamente necess\u00e1ria para o futuro da identidade ga\u00facha plural, enriquecida e pacificada. Em continuidade, Sep\u00e9 Tiaraju se torna <em>padroeiro da justi\u00e7a fundi\u00e1ria no RS<\/em> e das popula\u00e7\u00f5es que precisam de terra para continuar vivendo e criando seus filhos por toda a p\u00e1tria grande do Brasil e da Am\u00e9rica Latina. Aqui o progresso levou a novos enfrentamentos entre o latif\u00fandio e os que v\u00e3o ficando expostos \u00e0 margem da terra e da cidade. \u00c9, portanto, um ascendente e um inspirador das lutas do MST. Sep\u00e9 n\u00e3o \u00e9 padroeiro autom\u00e1tico de todos os que vivem nessa terra, n\u00e3o \u00e9 padroeiro do latif\u00fandio \u2013 seria uma blasf\u00eamia -, mas somente dos que <em>olham para a terra com o seu esp\u00edrito e com o seu olhar. <\/em><\/p>\n<p>Mas h\u00e1 todos os outros descendentes de ind\u00edgenas, de av\u00f3s bugres, que foram identificando e encantando Sep\u00e9 Tiaraju para si, para sua dignidade m\u00ednima. Para a multid\u00e3o de descendentes de amer\u00edndios ga\u00fachos, \u00e9 urgente tamb\u00e9m devolver a dignidade da auto-estima, da vis\u00e3o positiva que fortale\u00e7a a generosidade e d\u00ea disposi\u00e7\u00e3o de perd\u00e3o e de reconcilia\u00e7\u00e3o para com as demais descend\u00eancias vindas e crescidas no espa\u00e7o ga\u00facho. Inclusive trazendo seus ancestrais, seus mortos, na comunh\u00e3o m\u00edstica de sua religiosidade, para que desapare\u00e7a de nossas cal\u00e7adas as suas assombra\u00e7\u00f5es e a sua potencial viol\u00eancia obrigando a nos aprisionarmos em nossas casas com nossos ju\u00edzos violentos. E para que fiquem seus mortos sobre nossas noites como a luz brilhante e pura de Sep\u00e9 Tiaraju, o \u201cfacho de luz\u201d, do qual possamos todos nos orgulhar e possamos todos venerar. Ele pode se tornar como um \u201cpai Abra\u00e3o\u201d para todas as ra\u00e7as que habitam nesse espa\u00e7o ga\u00facho, como o Negrinho do Pastoreio o nosso \u201cServo sofredor de Jav\u00e9\u201d ga\u00facho que, exaltado ao lado da madrinha, tem a dignidade de ser a v\u00edtima redentora do seu algoz ajoelhado aos seus p\u00e9s. At\u00e9 l\u00e1, continuar\u00e3o os sacrif\u00edcios, as justificativas, as degolas, a insensibilidade, a \u201cgrosseria ga\u00facha\u201d, sobretudo a grosseria pedante da aristocracia propriet\u00e1ria diante dos que j\u00e1 nascem \u201csem\u201d chances, e o medo at\u00e9 das sombras que nos assaltam, e nenhuma descend\u00eancia ou ascend\u00eancia ter\u00e1 habita\u00e7\u00e3o pacificada numa justa p\u00e1tria ga\u00facha para todos.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que, assim como o Movimento Negro lan\u00e7ou o desafio \u00e0 auto-estima dos afro-descendentes com o slogan \u201cNegro \u00e9 bonito!\u201d, com base na documenta\u00e7\u00e3o e nos gestos herdados pelos descendentes \u00edndios, filhos de \u00edndios, no ano de Sep\u00e9 Tiaraju pode-se proclamar com justi\u00e7a: \u201c\u00cdndio \u00e9 nobre!\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Prof. Fr. Luiz Carlos Susin<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Cf. OLIVEN Ruben George, Rio Grande do Sul, um estado de fronteira. <em>Boletim Celpcyro. <\/em>Porto Alegre, v.3, p3-4, 2002.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Cf FREITAS D\u00e9cio, <em>O homem que inventou a ditadura no Brasil. <\/em>Porto Alegre: Sulina,<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> RABUSKE Arthur, Cartas de \u00cdndios Crist\u00e3os do Paraguai, M\u00e1xime dos Sete Povos, Datadas de 1753. In\u00a0: <em>Estudos Leopoldenses, <\/em>Vol. 14, n. 47 (1978)p65-102. O pesquisador utiliza e melhora tradu\u00e7\u00f5es antigas, com uma introdu\u00e7\u00e3o situando e avaliando os documentos.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Cf, por exemplo, ESCANDON Juan, <em>Hist\u00f3ria da transmigra\u00e7\u00e3o dos sete povos orientais. <\/em>Pesquisas, Hist\u00f3ria n\u00b0 23. S\u00e3o Leopoldo: Instituto Achietano de Pesquisas, 1983. O autor, escrevendo logo ap\u00f3s a trag\u00e9dia missioneira \u2013 em torno de 1760, portanto quatro anos depois &#8211; n\u00e3o est\u00e1 interessado diretamente nos \u00edndios, mas na defesa da reputa\u00e7\u00e3o dos jesu\u00edtas diante da iminente persegui\u00e7\u00e3o. Exatamente por isso, suas notas sobre os \u00edndios antes e durante a guerra de 1756 revelam de forma desinteressada, at\u00e9 mesmo quando menospreza, a verdade da nobreza e da f\u00e9 simples e firme dos \u00edndios missioneiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confira no artigo do professor e frei Luiz Carlos Susin a rela\u00e7\u00e3o entre a figura hist\u00f3rica de Sep\u00e9 Tiaraj\u00fa, o imagin\u00e1rio do povo representado no Negrinho do Pastoreio e a forma\u00e7\u00e3o da identidade ga\u00facha.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"template":"","class_list":["post-1348","artigos","type-artigos","status-publish","hentry"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.2 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Sep\u00e9 Tiaraju e a identidade ga\u00facha - Instituto Cultural Padre Josimo<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/artigos\/sepe-tiaraju-e-a-identidade-gaucha\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Sep\u00e9 Tiaraju e a identidade ga\u00facha - 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