{"id":1344,"date":"2019-02-08T07:40:05","date_gmt":"2019-02-08T09:40:05","guid":{"rendered":"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/?post_type=artigos&#038;p=1344"},"modified":"2019-02-08T07:40:05","modified_gmt":"2019-02-08T09:40:05","slug":"sepe-tiaraju-263-anos-depois-segue-presente-e-necessario-na-luta-dos-povos-artigo","status":"publish","type":"artigos","link":"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/artigos\/sepe-tiaraju-263-anos-depois-segue-presente-e-necessario-na-luta-dos-povos-artigo\/","title":{"rendered":"Sep\u00e9 Tiaraj\u00fa, 263 anos depois, segue presente e necess\u00e1rio na luta dos povos (artigo)"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-1345 size-full\" src=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/27655290_2023164144631685_4811325237731182750_n.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"301\" srcset=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/27655290_2023164144631685_4811325237731182750_n.jpg 500w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/27655290_2023164144631685_4811325237731182750_n-300x181.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/>\u201cSep\u00e9 n\u00e3o sabe o que aconteceu. V\u00ea seu cavalo no solo, ouve uma gritaria, levanta-se como que por impulso, mas n\u00e3o tem tempo para defender-se. Um portugu\u00eas lhe enfia uma lan\u00e7a pelas costas. O golpe \u00e9 t\u00e3o violento que a lan\u00e7a se parte. O pensamento se esvai. Longe v\u00e3o ficando os campos infinitos, os caminhos ind\u00edgenas, o vento frio das manh\u00e3s de inverno. Longe os ervais, as missas em latim, os Sete Povos missioneiros. N\u00e3o escutam mais a voz dos padres. N\u00e3o tem mais tempo para invocar S\u00e3o Miguel Arcanjo. De Portugal, partiu o primeiro golpe e o segundo vem da Espanha. O coronel Viana chega em seu cavalo e, com sua arma, desfere o tiro de miseric\u00f3rdia\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n<strong>(Lu\u00eds Rubira, Sep\u00e9 Tiaraju e a Guerra Guaran\u00edtica)<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Chegamos a mais um 7 de fevereiro. Alguns at\u00f4nitos seguem surpresos com os descaminhos tra\u00e7ados pela anti-pol\u00edtica executada pelo novo governo de velhas ideias que se instalou desde Bras\u00edlia; outros, inertes \u00e0 hist\u00f3ria e ao que se desenvolve em seu entorno, como gado caminham passivos ao matadouro, apenas esperando o Carnaval chegar. Mas h\u00e1 quem insista, quem resista, quem contrarie a l\u00f3gica permissiva de tempos avessos \u00e0 utopias.<\/p>\n<p>Mas a que se refere essa data? 7 de fevereiro demarca o mart\u00edrio de Sep\u00e9 Tiaraj\u00fa, em 1756. Antev\u00e9spera do genoc\u00eddio de Caiboat\u00e9, que selaria com sangue o fim dos Sete Povos das Miss\u00f5es Orientais, experi\u00eancia de conv\u00edvio coletivo estabelecida entre padres jesu\u00edtas e o povo Guarani, que chegou a contar com mais de 35 mil habitantes convivendo em harmonia, sendo definida por Voltaire como \u201co triunfo da humanidade\u201d. O contraste entre dois modos diferentes de ver o mundo foi posto em luta: de um lado os ind\u00edgenas catequizados, que apesar de ter consigo os preceitos do Deus Crist\u00e3o seguiam convictos de que a terra onde pisavam n\u00e3o lhes pertencia e, sim, eles \u00e9 que pertenciam a ela; no outro extremo da disputa, um ex\u00e9rcito vil, luso-espanhol, unindo velhos inimigos em torno da ideia de que a terra \u00e9 perten\u00e7a do maior, \u00e9 posse da m\u00e3o mais forte, \u00e9 propriedade de um rei e seus vassalos.<\/p>\n<p>H\u00e1 263 anos Sep\u00e9 tombava, transpassado pela lan\u00e7a portuguesa, rompido pela bala espanhola. Ca\u00eddo o homem, a lembran\u00e7a de seus feitos e \u2013 principalmente \u2013 de seu ideal, garantiria o papel de protagonista da hist\u00f3ria e, no imagin\u00e1rio popular, a m\u00edtica figura de um her\u00f3i em quem se inspirar. O \u00edndio guarani que destacou-se como gestor em tempos de paz e como estrategista em tempos de luta, merece o justo reconhecimento como um dos grandes nomes da humanidade quando refletimos a respeito da resist\u00eancia permanente dos povos contra o imperialismo.<\/p>\n<p>Sep\u00e9, o comandante da Guerra Guaran\u00edtica, um sujeito hist\u00f3rico concreto e datado, alferes e corregedor do Povo de S\u00e3o Miguel Arcanjo e um dos principais comandantes da resist\u00eancia guarani-missioneira \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o do tratado de Madri em terras do hoje estado do Rio Grande do Sul foi declarado \u201cHer\u00f3i Guarani Missioneiro Rio-Grandense\u201d pela Lei estadual n\u00famero 12.366 (D.O.E. de 04\/11\/2005) e inscrito no \u201cLivro dos Her\u00f3is da P\u00e1tria\u201d pela Lei federal 12.032 (D.O.U. de 21\/09\/2009). A m\u00edstica em torno de seu nome e das circunst\u00e2ncias de sua morte \u2013 martirizado \u2013 rendeu-lhe pela voz do povo o status de Santo Popular, redundando em um tr\u00e2mite oficial junto \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica que recentemente acolheu o processo de canoniza\u00e7\u00e3o do l\u00edder ind\u00edgena missioneiro.<\/p>\n<p>O mart\u00edrio de Sep\u00e9, comandante que reunia a esperan\u00e7a de uma uni\u00e3o dos povos origin\u00e1rios frente o ex\u00e9rcito luso-espanhol, redundaria dois dias depois, no genoc\u00eddio de Caiboat\u00e9, onde mais de 1.500 guaranis missioneiros seriam assassinados covardemente \u2013 canh\u00f5es contra flechas, p\u00f3lvora contra lan\u00e7as \u2013 em uma coxilha (campo aberto) do hoje munic\u00edpio de S\u00e3o Gabriel, RS. Sem seu comandante, os valentes guaranis foram dizimados pelos soldados mercen\u00e1rios do imp\u00e9rio. Assassinava-se ali um projeto de civiliza\u00e7\u00e3o. Um projeto cheio de contradi\u00e7\u00f5es, pr\u00f3prias do tempo, mas pleno de afirma\u00e7\u00f5es, conquistas e valores, impr\u00f3prios para aquele tempo. Basta dizer que ali, entre os sete povos missioneiros, n\u00e3o havia escravos, sina triste que grassava em quase todas as partes do mundo onde chegava a dita civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3 europeia.<\/p>\n<p>A civiliza\u00e7\u00e3o missioneira afirmava uma sociedade de iguais, a propriedade coletiva, garantia o cuidado com as crian\u00e7as e com os idosos, terra e trabalho para todos, a inviolabilidade do lar e da subjetividade, os celeiros cheios e os lares sem fome, a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica acess\u00edvel a todos, o trabalho feito com alegria, pois se cantava ao ir e ao voltar do labor di\u00e1rio, o di\u00e1logo cultural contradit\u00f3rio e fecundo entre os jesu\u00edtas europeus e os amer\u00edndios guaranis, a democracia e a participa\u00e7\u00e3o popular na elei\u00e7\u00e3o direta dos dirigentes das cidades guaranis missioneiras, o fant\u00e1stico desenvolvimento das artes (m\u00fasica, escultura, teatro, pintura, arquitetura), o desenvolvimento de v\u00e1rios ramos da ind\u00fastria (t\u00eaxtil, metal\u00fargica, coureira, constru\u00e7\u00e3o civil, cer\u00e2mica), o desenvolvimento da agricultura (milho, trigo, erva-mate, amendoim, batata doce, algod\u00e3o, feij\u00e3o, ab\u00f3bora, horticultura, fruticultura) e da pecu\u00e1ria (nas est\u00e2ncias coletivas de gado e na cria\u00e7\u00e3o de ovelhas, porcos e cavalos). Como bem exemplificou Clovis Lugon, uma esp\u00e9cie de rep\u00fablica que foi \u201cinterpelando crist\u00e3os e comunistas, muito crist\u00e3 para os comunistas da \u00e9poca burguesa, muito comunista para os crist\u00e3os burgueses\u201d (1975, prefaciando o livro \u201cSep\u00e9 Tiaraj\u00fa: Romance dos Sete Povos das Miss\u00f5es\u201d).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o massacre, como que sentindo o significado desta derrota, a catedral de S\u00e3o Miguel arde em chamas, queimando toda a madeirama e permanecendo em p\u00e9 a estrutura de pedras. E aquela pujante catedral em ru\u00ednas, fincada no descampado ga\u00facho, permanece como que uma cicatriz antiga, sempre lembrada, de uma ferida mal curada no passado do povo do Rio Grande do Sul e brasileiro. Passados 263 anos, o que sobreviveu e atravessou os tempos at\u00e9 nossos dias s\u00e3o as imagens das paredes da catedral semidestru\u00edda \u2013 as Ru\u00ednas de S\u00e3o Miguel \u2013 e a mem\u00f3ria do \u00edndio valente que tombou lutando para defender seu territ\u00f3rio \u2013 Sep\u00e9 Tiaraju.<\/p>\n<p>Sep\u00e9 e seus companheiros se transformam na condensa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da luta, dos sonhos, dos feitos, do projeto, do hero\u00edsmo de um povo. \u00c9 um mito fundador e transforma-se no s\u00edmbolo maior de um projeto de civiliza\u00e7\u00e3o que foi brutalmente interrompido, mas que continua vivo como sonho coletivo de uma sociedade de irm\u00e3os. Sep\u00e9 \u00e9 o s\u00edmbolo que pulsa expresso nas ru\u00ednas da catedral, hoje patrim\u00f4nio cultural da humanidade reconhecido pela Unesco. Trata-se de um s\u00edmbolo de ru\u00ednas vivas, representando as gentes exclu\u00eddas, pobres, exploradas, esquecidas, desprezadas; ru\u00ednas de quem teima em buscar seu lugar ao sol, em um peda\u00e7o de terra repartida, em um emprego digno, em uma inf\u00e2ncia decente, em uma velhice respeitada, em sua dignidade reconhecida.<\/p>\n<p>As ru\u00ednas de pedras que ficaram como monumento hist\u00f3rico relembrando o sangue guarani derramado pelas m\u00e3os do imp\u00e9rio genocida, espelham em suas paredes as ru\u00ednas de gente das favelas, dos campos, das fazendas, das matas, das cadeias, das ruas, de baixo das pontes, das f\u00e1bricas, das vilas, dos barracos, das lonas pretas dos acampamentos, das \u00e1reas ind\u00edgenas, das beiras de rios e das beiras de estradas. As ru\u00ednas de gente podem continuar sendo ofendidas, pisadas, esquecidas, desprezadas, feridas, reprimidas, dilaceradas, destru\u00eddas, vilipendiadas, mas sempre conservar\u00e3o a possibilidade de reerguer-se, superar-se, ressurgir, at\u00e9 chegar o dia em que o sonho deixe de s\u00ea-lo, e se transforme em realidade viva. Quando chegar este momento, o povo vai reencontrar-se com suas ra\u00edzes mais profundas, cravadas no ch\u00e3o f\u00e9rtil da cantante civiliza\u00e7\u00e3o guarani, retomar\u00e1 em suas m\u00e3os a constru\u00e7\u00e3o do projeto de sociedade justa e feliz interrompido a canhona\u00e7os nas coxilhas de S\u00e3o Gabriel no fat\u00eddico fevereiro de 1756.<\/p>\n<p>Hoje, as ru\u00ednas de pedras s\u00e3o visitadas, fotografadas, filmadas, admiradas. As ru\u00ednas de gente s\u00e3o escondidas, negadas, ignoradas, difamadas, reprimidas, condenadas, desprezadas, temidas. A catedral existe. N\u00e3o h\u00e1 como negar a impon\u00eancia daquelas paredes de pedra. \u00c9 ponto tur\u00edstico. Patrim\u00f4nio cultural da humanidade. Para muitos historiadores, Sep\u00e9 n\u00e3o existe. \u00c9 uma lenda. \u00c9 fruto da imagina\u00e7\u00e3o popular. \u00c9 cria\u00e7\u00e3o da literatura. Mas ambos povoam nossa mem\u00f3ria e marcam presen\u00e7a em nosso imagin\u00e1rio social e em nosso inconsciente coletivo. A catedral \u00e9 mem\u00f3ria visual repleta de beleza pl\u00e1stica. Sep\u00e9 \u00e9 mem\u00f3ria perigosa carregada de sonhos revolucion\u00e1rios. Desenvolveu-se enorme habilidade em domesticar catedrais. Utopias revolucion\u00e1rias s\u00e3o indomestic\u00e1veis.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o se encarou de frente este nosso mal-estar civilizat\u00f3rio. H\u00e1 no inconsciente coletivo de nossa sociedade um sentimento de culpa mal resolvido. Por isto, para muitos, \u00e9 mais f\u00e1cil dizer que Sep\u00e9 \u00e9 uma lenda do que reconhecer que s\u00f3 existimos por conta do assassinato de um projeto civilizat\u00f3rio infinitamente melhor que o nosso, pois mais justo e mais alegre. E que o nosso s\u00f3 pode ser constru\u00eddo sob as patas dos cavalos e o rastro dos canh\u00f5es dos imp\u00e9rios de Portugal e Espanha pisoteando o sangue guarani. Na terra de todos, cravou-se o latif\u00fandio. No trabalho feliz, cravou-se a escravid\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o. Em vez de p\u00e3o nas mesas de todos, luxo nas mesas de alguns, fome e mis\u00e9ria nos lares de muitos. Em vez de dignidade de todos, humilha\u00e7\u00e3o das grandes massas que precisam do favor alheio para sobreviver.<\/p>\n<p>Sep\u00e9 morreu lutando. O general portugu\u00eas Gomes Freire venceu. A f\u00faria expansionista dos imp\u00e9rios europeus, aben\u00e7oados por uma Igreja aliada aos poderosos, fez sentir o peso de suas armas. O massacre brutal destruiu milhares de lares e milhares de sonhos. Outro projeto de sociedade ganhava corpo. Sobre os destro\u00e7os da civiliza\u00e7\u00e3o guarani plantaram-se os latif\u00fandios das sesmarias, que fizeram crescer injusti\u00e7as, desigualdades, \u00f3dios, dores e mortes. E este projeto, com as adapta\u00e7\u00f5es dos tempos, impera at\u00e9 nossos dias. Temos muitos motivos para relembrar Sep\u00e9. Nesse tempo em particular, onde os direitos de trabalhadores s\u00e3o desconstitu\u00eddos, onde o interesse financeiro sobrep\u00f5e-se \u00e0 vida dos povos, onde a lei mostra-se servil aos interesses das classes abastadas e omissa frente as necessidades dos menos favorecidos, onde se proclama em voz aberta e se estabelece como fala institucional a nega\u00e7\u00e3o das individualidades e o exterm\u00ednio das minorias, onde novos imp\u00e9rios se levantam com m\u00e3o forte para derrubar a soberania dos povos, mais do que nunca \u00e9 preciso ter conosco o mito, o santo, e \u2013 principalmente \u2013 o guerreiro Sep\u00e9 Tiaraju, que de tempos em tempos renasce das entranhas da terra, na organiza\u00e7\u00e3o e nas lutas dos pobres, na resist\u00eancia popular, o sonho e o projeto de um mundo de irm\u00e3os, uma sociedade de iguais, uma terra de justi\u00e7a, uma vida com dignidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Frei S\u00e9rgio G\u00f6rgen ofm, dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Marcos Antonio Corbari, jornalista, militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MP<\/em>A)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O guerreiro Sep\u00e9 Tiaraju de tempos em tempos renasce das entranhas da terra, na organiza\u00e7\u00e3o e nas lutas dos pobres, na resist\u00eancia popular, no sonho e no projeto de um mundo de irm\u00e3os, na sociedade de iguais, na terra de justi\u00e7a, na vida com dignidade.<\/p>\n","protected":false},"author":9,"template":"","class_list":["post-1344","artigos","type-artigos","status-publish","hentry"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.2 - 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