Quem sempre produziu comida agora pode passar fome (seca no bioma Pampa, parte 2)

18 de Março de 2018

Segmento responsável por levar mais de 70% da comida à mesa dos brasileiros, pode ficar sem alimento na sua própria mesa

 

Milho que chegou a se desenvolver acabou não granando pela falta de chuva.

É um contrassenso. Mas é real. Para as famílias camponesas ao sul do Rio Grande do Sul, a fome é um risco bem concreto. O segmento que é responsável por produzir mais de 70% do alimento que chega até a mesa do povo brasileiro, ali está correndo o risco de ficar sem alimento na sua própria mesa. Seguimos viagem, partindo de Canguçu rumo a Encruzilhada do Sul, já avançando em direção à região do Vale do Rio Pardo. O chão segue seco, o sol ardido e o semblante do camponês receoso com a dúvida de como vai ser sua vida nos próximos meses.

A primeira visita já foi simbólica. A família Silveira tem como principal atividade na pequena unidade produtiva os hortifrutigranjeiros que são comercializados para famílias urbanas e também ajudam a nutrir os cardápios da merenda escolar. “Essa é a segunda seca que eu pego aqui, mas o que a gente percebe é que a cada ano vai se agravando”, conta Aguinaldo Machado da Silveira, 42 anos, que tira da horta e pequenos plantios próximos à casa o sustento para a família composta ainda pela esposa e um casal de filhos adolescentes. Demonstrando o senso de coletividade característico ao camponês, ele se preocupa com os vizinhos e demais companheiros de lida que estão ficando sem produção e até a água de beber já ficou rala. “Muita gente tá sentindo isso, falta água, não tem uma estrutura, não tem um bebedor para os animais, tem que às vezes passar por um campo do vizinho para levar os animais até um arroio para beber, as cacimbas são antigas e não são de boa qualidade”, reflete, lembrando que antigamente as estruturas eram suficientes para a sobrevivência, mas que aquilo que se nota nos últimos tempos é que ano a ano as águas vêm diminuindo.

Aguinaldo perdeu o milho e a maior parte da produção da horta que seria comercializada na merenda escolar

O camponês costuma ter orgulho de seu pedaço de chão. Planta para comer, por isso sempre aposta na diversidade. O excedente vai para a venda, garantindo a renda da família. É um sistema simples, mas que garante a comida boa para quem está no campo e também para quem vive na cidade e busca qualidade na alimentação boa que sai dali. Mas a essa gente por sua simplicidade vive em uma espécie de invisibilidade, distante dos cuidados que as instâncias de poder deveriam ter para consigo, seguem por si mesmos resistindo à realidade de tempos ardidos como o sol do meio dia que já vai enrugando até o arvoredo.

“Nem sei mais contar quanto tempo que em toda eleição prometem que vão fazer poço artesiano para garantir pelo menos a água da gente nos períodos de estiagem, mas passa eleição de prefeito e vereador, depois de deputado, governador e presidente, e a coisa fica só na promessa mesmo”, conta Nelson Valdemir de Menezes, 61 anos e uma vida inteira dedicada ao campo na comunidade de Coxilha Grande, cerca de uma hora distante da cidade de Encruzilhada. “Qual é o político que faz alguma coisa para o pobre?”, questiona o camponês, esperando uma resposta que não sabemos oferecer. “Quem planta por si mesmo perde o que tem e quem planta fazendo dívida ainda fica com a conta para pagar”, resume. “Se não tiver a gente aqui no interior, a cidade vai passar falta de tudo, se não tiver produção aqui não vai ter comida na mesa lá”, arremata seu Nelson, relembrando um velho dito que no meio popular não se cansa de repetir em todos os momentos de luta.

Ultimo recurso para água dos animais são as sangas, poucas ainda não estão interrompidas.

Outro que demonstra um misto de tristeza e indignação é Jorge Luís Santos de Borba, 54 anos. Em sua unidade produtiva tem de tudo um pouco, mas o que lhe orgulha mesmo é a horta de orgânicos. Orgulho esse que vai ficando de lado, porque nesse período não tem muito o que mostrar. “Queria que esse pessoal da política viesse passar um dia com a gente aqui na roça, não precisava nem trabalhar, era só sentar e ficar olhando como o nosso dia é sofrido”, relata enquanto abre uma espiga de milho que não chegou a se desenvolver. “A planta tá perdida, não tem mais o que fazer, o milho não vai dar nada, o feijão deu muito pouco, até a mandioca ficou prejudicada”.

O que salta aos olhos por onde se anda é que há contrastes na paisagem. Conforme explica Adilson Schuch, da direção estadual do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), “essa seca é verde”. O fenômeno, segundo o camponês, não é novidade na região. “Outras vezes já foi assim, a estiagem estraga o plantio e depois de já estar tudo perdido vem umas chuvas isoladas em alguns pontos, são pancadas, chove bastante e de forma rápida, aí dá uma reanimada no verde, a pastagem tenta reagir, mas não serve para recompor os reservatórios de água, nem para salvar a planta que já está perdida, a terra não recupera a humidade”, explica. As imagens não mentem, ao fundo das roças onde as plantas murcham sem força para se desenvolver, as ervas daninhas e o pasto exibem um verde ainda vistoso pela pancada que passou rapidamente três dias atrás, assim como o leito dos arroios, sangas e açudes que vão secando e se observa a vegetação que se cria no solo em busca do que ainda há de humidade ali.

Valdeci da Silveira perdeu praticamente toda produção e tem dividido a água que ainda tem na unidade produtiva com os vizinhos.

A seca verde serve para tornar ainda mais invisível a dor do camponês. Não é força de expressão. É dor mesmo. É invisibilidade mesmo. Já se começa a falar da necessidade de mobilização. Já se começa a despertar a necessidade de um novo levante camponês. Aqui e ali há ideias que divergem sobre muitas questões, mas uma opinião é unânime: só se vai alcançar respostas se todos estiverem dispostos a se colocar em marcha e ir à luta. Seguimos, acompanhe no próximo texto, nossas prosas em Amaral Ferrador.

 

Marcos Antonio Corbari | Jornalista

Rede Soberania | Instituto Padre Josimo | MPA

 

 

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