Camponeses enfrentam prova de resistência no Pampa (seca no bioma Pampa, parte 3)

19 de Março de 2018

Mario Luis procura por alguma espiga que tenha se desenvolvido em meio ao milharal perdido

 

Em alguns pontos a ausência de chuva ultrapassou cinco meses, o que se pode notar até no baixo volume de água do rio Camaquã

Amaral Ferrador é um pequeno município do vale do Rio Pardo, um entre tantos que serve de passagem ao rio Camaquã. O tradicional curso de água dá um susto aos desavisados quando coloca a mostra seu leito arenoso. Com menos de um quarto de sua vazão normal, já é possível atravessar de uma margem a outra sem esforço maior. A água rala no Camaquã serve de socorro para muita gente que avança leito adentro para socorrer a sede da criação, mas serve também de símbolo para estes dias que temperam com aridez o clima e a esperança de milhares de famílias que se dedicam ao ofício de produzir alimento a partir da terra.

Ali encontramos uma cena de cortar o coração. Gelmiro Silas Ribeiro, conhecido por Tio Miro, 87 anos, buscando água barranco abaixo para trazer aos cabritos que cria com muito cuidado e atenção. “Nunca vi seca assim em mais de 40 anos que estou por aqui, já tivemos até mais tempo sem chuva mas do jeito ardido que está sendo hoje eu não me lembro de ter visto”, relata. “Os bichinho tão sofrido e planta vocês podem ver como tá ruim, se depender da planta estamos em situação complicada”, desabafa.

 

Tio Miro, aos 87 anos sobe e desce barranco para buscar e levar água até seus cabritos

 

Seu filho, Mário Luís, nos leva até as roças onde plantam batatas, milho, mandioca e melancias, entre outras culturas que fazem daquele pedaço de chão um exemplo de diversidade. “É tudo orgânico, o milho é crioulo, nada de veneno nessa terra”, relata orgulhoso enquanto atravessamos os declives do terreno. Porém o olhar vai ficando marejado quando chegamos ao plantio, onde o camponês aponta com tristeza as perdas: o milho cresceu e soltou a espiga, mas não desenvolveu e está perdido; a batata, judiada que está, não vai dar nem para o consumo da família; a mandioca já enrugou a folha e teve o desenvolvimento prejudicado, as melancias cresceram até aproximadamente o tamanho de uma bocha, ficando pequenas e sem sabor. “Essa é a realidade do camponês, a gente nem gosta de dizer, mas a verdade é que muita gente que estáacostumada a produzir comida para os outros agora está correndo o risco de ficar sem ter o que comer”, completa.

Encontramos na estrada a responsável pela secretaria da agricultura no município, Manoela Louzada Lacerda, 64 anos. A tarefa daquele dia era percorrer as comunidades e acompanhar o roteiro de trabalho das equipes que estão socorrendo os agricultores. Segundo ela, a realidade em muitas comunidades está desesperadora: “Tem lugar onde as famílias estão percorrendo 4 a 5 quilômetros para buscar água para o consumo próprio e para cuidar os animais”. O governo do estado cedeu uma máquina para ações emergenciais por 28 dias ao município, mas segundo a secretária essa iniciativa, apesar de ajudar, ainda é muito pouco. “A máquina nós precisávamos dela pelo menos uns 45 dias, e entendemos que precisa existir também uma ajuda emergencial com cestas básicas e talvez um cartão ou cheque-seca como já se fez em outros momentos para os pequenos agricultores que estão em situação mais precária”, explica. As parcelas do financiamento do Pronaf são outro problema no norte dos camponeses, uma dívida que logo ali na frente não terão como honrar. “Essa questão da dívida o governo precisa ajudar, ou abonar a próxima prestação ou pelo menos prorrogar o prazo até que se normalize as coisas no campo”. O relato da secretária confirma o que temos testemunhado nas andanças e conversas que empreendemos desde Canguçu, passando por Encruzilhada do Sul e agora culminando em Amaral Ferrador, ou seja, que os agricultores estão em desespero, muitos não terão safra, a planta do cedo se perdeu com a estiagem e quem plantou em fevereiro pra cá também vai ver que não se desenvolveu. “Esperança a gente tem de dar a volta, mas precisa construir esforço conjunto, de uma lado as famílias se organizando para buscar o atendimento das suas necessidades, do outro as prefeituras que são quem atende todos os dias essas demandas, mas também os governos do Estado e Federal precisam fazer a sua parte pois lá ficam concentrados muitos recursos”, finaliza.

 

Rio Camaquã deixa o leito a mostra, assustando quem passa pelas imediações com o baixo volume de água

 

Assim encerramos nossos três dias de caminhada, testemunhando a realidade de um povo que faz do seu ofício diário o plantio de culturas e a criação de animais que não são destinados aos valores formados pelos commodities que embalam o mercado financeiro e nutrem a balança fiscal, ao contrário, se encaminham direto do produtor para a mesa do consumidor. Homens e mulheres que tem o rosto marcado e as mãos calejadas, mas trazem consigo uma determinação que desafia a esperança em dias melhores, onde a natureza seja respeitada para que estiagens como a que atravessa o bioma Pampa sejam evitadas através da solução do problema original que as causam, bem como que a sociedade e os governos estendam seus olhos e ultrapassem essa camada de invisibilidade imposta pela grande mídia e reconheçam a importância do pequeno para que se mantenha em movimento a engrenagem social do nosso tempo.

A prosa e os escritos ainda não encerram aqui. Acompanhe no próximo texto o que o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) está propondo, de forma articulada com as milhares de famílias que forma sua base, para atender as demandas emergências e também para retomar um programa sério de desenvolvimento para a agricultura camponesa.

 

Vegetação característica da seca verde toma conta de reservatório de água que secou

 

Marcos Antonio Corbari | Jornalista

Instituto Padre Josimo | Rede Soberania | MPA

 

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