O homem, o jogo (artigo de Silvia Niederauer)

27 de Março de 2018

Silvia Niederauer

A sociedade na qual estamos imersos, hoje, cobra do ser humano modos diversos de sentir-se integrado em um mundo que se diz globalizado e globalizante: ele, o homem, precisa dominar técnicas mercadológicas, a fim de sobreviver e conquistar um espaço mínimo em que possa, ele também, ser de interesse para os demais.

Explico melhor: os dias atuais exigem a capacidade de o próprio homem ser mercadoria de troca, com pouco valor ou, às vezes, servindo apenas como uma moeda ínfima como pagamento que lhe garanta a permanência em determinado círculo, seja ele particular ou de trabalho.

Na esfera profissional, vê-se muito nitidamente o jogo perverso que se estabelece no quesito valor/flexibilização de acordo com as conexões mercadológicas. A nova condição imposta ao ser humano aponta para a perda de referências fundadoras que, tempos atrás, regia e respondia por uma ordem política (esqueçamos o partidarismo, por favor!) e que permitia que o sujeito trilhasse um caminho com uma aura de segurança, mesmo que ela, a aura, fosse imaginária.

Se o homem passa a ser mercadoria de troca, o que lhe cabe fazer para manter-se em sintonia com as tendências e exigências do mercado de trabalho? A resposta pode ser terrivelmente triste: a ele apenas lhe é permitido entrar no jogo e valer-se de um “procedimento”, quase nunca ético, para que o circuito possa ser recolocado em funcionamento outra vez. Assim, a rede de interesses se estabelece e constitui-se pelo utilitarismo, apenas. Cada um vale pelo que possa oferecer de acordo com a necessidade daquele momento, daquele lugar e daquelas pessoas que assumem o poder.

O perigoso caminho que se forma, ao que parece, é o do aniquilamento da subjetividade, do gosto pelas coisas fáceis, que não exigem do homem o menor grau de cultura; dessa maneira, a aparente instrução é validada pela subserviência a um trabalho em que a ética e a seriedade sucumbem ao vendável e “útil”, mas descartável.

Quase nada mais permanece, pois a regra a ser seguida é a da rapidez e banalidade, em todos os segmentos da vida. No campo de trabalho, vale mais quem evita o pensamento crítico, que colocaria em xeque os “valores” indicados pela “empresa” – seja ela qual for.

Assusta saber que o projeto (quero crer que seja, ainda, projeto) de sociedade que está em curso coloca os homens na condição de serviçais anônimos, sem a menor possibilidade de reivindicar ações e posturas outras que não aquelas impostas pelo ‘grande chefe’, mesmo que não se saiba exatamente quem ele é. A dessimbolização do mundo, o afastamento de opiniões próprias e de confronto com o pré-estabelecido são armas proibidas no jogo do neoliberalismo. Quem não se subordinar às regras, será descartado sumariamente.

O jogo-brincadeira, antes da atual construção social, agora é competição: ganha quem for mais esperto, o que, via de regra, garantirá sua permanência e, com sorte, respeitabilidade, naquele ‘trabalho’. Se o jogo já fora uma forma de liberdade, de ato desinteressado, hoje tem foro de urgência, em que vencer é a única palavra possível; seu contrário seria o fracasso do homem que se deixou metamorfosear em peça de tabuleiro desnecessária.

*professora doutora, Lingua Portuguesa e Literatura.

(texto publicado no Diário de Santa Maria, 14/03/2018)


Autor
ICPJ